quinta-feira, 19 de junho de 2014

MÚSICA PARA COPA




  
EM HOMENAGEM À COPA DO MUNDO O PIANISTA CHRISTOPHER SCHINDLER DE PORTLAND POSTOU UM NOVO AUDIO CLIP DE VILLA-LOBOS GRATUITO, OUÇA EM:


http://www.christopherschindler.com/audio_clips
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 In recognition of the World Cup going on currently in Brazil, my website has a new audio clip of the week.http://www.christopherschindler.com/audio_clips

Enjoy listening to this musical interlude and have a nice day.

Christopher Schindler
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quarta-feira, 18 de junho de 2014

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade


 




“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade

por Tânia Du Bois

            Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe, soneto de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).
            Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.
             Samuel ressalta o caráter literário da obra com olhar sobre o poeta. Revela o poder de quem interpreta costurando palavras e dando o significado à estrutura maternal dos sonetos, e declara que “o mundo poético e o mundo da realidade colidem, possuindo cada qual a sua própria verdade”.
            Fios de luz, aromas vivos – são sonetos que Jorge Tufic, inspirado na realidade, reconhece como expressão das lembranças. Segundo Samuel, “... acaba por ser mais real do que a própria realidade.” A voz de Tufic reflete a sua própria imagem, onde faz um testemunho do Retrato de Mãe. Em jogo de palavras, proclama histórias que espelham a sua relação com a sua mãe, como se fosse ontem e vivesse o amanhã. Cria significado através do tempo e das lembranças que sinalizam a sua ausência, buscando dar sentido à sua vida. “Que restara de ti, dos teus pertences? //... Tudo posto num saco humilde e roto. / Eu quis, então, medir esse legado, / mas limites não vi para a tristeza. / Davas a sensação de que o tesouro / se enterrara contigo. //... Que eternidade / pode igualar-se à voz desta saudade?”
            Através da imagem poética, mostra o seu eu versus mãe, ao alcançar a infinitude do tempo: sua intimidade desvela os mistérios da dor da ausência. Nesse horizonte, o poeta compreende, interpreta e projeta o sentido da herança da Grande Mãe que se perde com a morte.
            Fios de luz, aromas vivos revela a parceria de mãe e filho, onde apenas o amor é o único segredo. E a memória do poeta reconstrói os bons momentos sem se perder no tempo. “Nossa infância era tudo iluminada / pelas fontes da tua juventude. //... Ainda te vejo, o porte esbelto indo / por aqueles baldios transparentes / onde a luz, de tão verde, pincelando / os ermos...”
            Mesmo com a saudade presente, Jorge Tufic, em seus sonetos, volta ao seio materno para registrar a importância e a resistência da lembrança (viva) em sua vida. Ao escrever Retrato de Mãe, não teve medo de mostrar a outra face, o lado filho.
            O encontro entre lembranças e saudades, filho e mãe, deu a oportunidade ao escritor Rogel Samuel de fazer a análise detalhada da obra, mostrando o Poeta Jorge Tufic com o dom do mistério menor e mais emoção, revelando, mais uma vez, o seu talento literário.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

SOBRE "FIOS DE LUZ"




maria azenha disse:
Querido Rogel,

“ Fios de Luz, aromas vivos”, uma sua leitura magistral. Nos entrega uma chave que abre mil poemas dentro de cada poema, portas que se abrem continuamente.
Infinitos dentro de infinitos, auroras que fazem o quê diante da morte?
Sinto-me pequena criança a descobrir nos mil espelhos a voz que sempre chama .
Como refere, através de Cage: “ Poesia é não ter nada a dizer e dizer: não possuímos nada”.
Ao lê-lo, durante a noite, fui registando alguns aromas que as suas palavras e os poemas de “ Retrato de Mãe” de Jorge Tufic me trouxeram:
Lembro-me destes que se cruzaram,
Estava na primavera.
E a morte era um sonho em branco.
Neste “ Retrato de mãe” as suas reflexões remeteram-me para as Matrioshkas, umas dentro de outras, em que a última é a única que não é oca.
“ …a alma sai inteira, como quem abre a luz da primavera.”, disse-o.
Vou voltar a este livro com mil livros dentro, sempre que a Voz me chamar.
Estou maravilhada.
Abraço grande,
maria azenha
(Lisboa)


SOBRE "FIOS DE LUZ"
"Já comecei a ler e estou achando o livro o máximo: sua análise é tão bela e poética quanto os poemas do Tufic (LEILA MICCOLIS) - "Fios de luz, aromas vivos", constituido por 15 sonetos pós-modernos de autoria do excepcional poeta Jorge Tufic, com um tema que sempre desperta muito amor e,com a competente análise, comentários e interpretação de um virtuoso mestre como você, - o livro é uma joia. Parabéns. (Ursulita Alfaia) - "Estou lendo Fios de luz, admirando a beleza, a sutileza e a atenção com que ouve e compreende o belo poema de Tufic (Jefferson Bessa)"
"Querido Rogel, sua leitura dos sonetos de Tufic é pura poesia. Estou encantada com "Fios de luz"!Muito obrigada por me brindar com o livro e sua linda dedicatória.(MARCIA SANCHEZ LUZ) - "Retrato de Mãe" , poemas de Jorge Tufic que Rogel vai cautelosamente desvendando em sua análise. Como um mestre de cerimônias, convida-nos a passear pelos quinze sonetos. Pleno de ensinamentos e toques bibliográficos que nos levam à reflexão sobre caminhos da “teoria literária” ao longo dos anos. Assim, o livro “Fios de luz, aromas vivos...” trouxe para mim momento de compreensão maior sobre a delicadeza e a força do texto poético sob a ótica de Rogel Samuel. Muito obrigada por esse presente.( Bernardina de Oliveira) - Magnífica a sua intrepretação de Retrato de Mãe, de Jorge Tufic.Você fez um ensaio filosófico no livro Fios de Luz, Aromas Vivos:A sua análise é algo extraordinário, simplesmente diáfano e iluminado.O logos e o diálogo estão presentes na sua exata dimensão, na dimensãoda pólis, enfim, na organização imaginária do ser humano, do filho que nãoesquece nunca de sua querida e amada Mãe. Sempre lembrada.Parabéns! (Clark Varajão)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

PRECIOSAS OPINIÕES




SOBRE O "TEATRO AMAZONAS"
Recebi teu livro sobre a construção do Teatro do Amazonas.Maravilhosos os passos em volta da Floresta Amazonica que mistura seu aroma selvagem com o trabalho da construção do Teatro. Um Teatro de Opera, no centro da cidade de um Estado, é o Despontar da Arte Clássica em meio ao neo-barroco do recém nascido Amazonas (Clarisse de Oliveira). -


ALGUMAS OPINIÕES SOBRE Rogel Samuel:
Rogel! Fiquei tão impressionada com o livro e maravilhada porque era muito além do que eu imaginava, que li ontem e ontem mesmo acabei. Sempre que me agrada sou assim, por mais longo que seja, não consigo parar. Mas quando isso acontece, percebo de imediato que é o autor que prende. Sei que tinha e tenho interesse pelo nosso Amazonas, mas você escreve bem demais, Consegue passar imagens à leitura. Vou colocar no meu perfil, como livro preferido , e já influenciei muitas pessoas. Isto só aconteceu comigo duas vezes, quando li O Ventre de Carlos Heitor Cony e o seu.
MUITO OBRIGADA! (MIRZE SOUZA)

"Poucas vezes li um texto tão bem condensado sobre teoria literária. Felicito-o pela plena realização, coisa rara no gênero" (NELSON WERNECK SODRÉ). «O meu abraço de parabéns pelo muito que aprendi com você. O estudo sobre o Rosa é mais do que excelente - é perfeito. Um grande abraço deste seu velho admirador e amigo». (JOSUÉ MONTELLO) «Hoje trocamos de lugar, você na cátedra, eu na assistência.» (ALCEU AMOROSO LIMA)"É uma obra-prima" (ELIANA BUENO-RIBEIRO) "são raros os romances históricos sobre temas brasileiros, e a visão de Rogel Samuel é primorosa" (LEILA MÍCCOLIS) “Escreveu o quadro de uma época( 1897) com muito vigor e beleza, significativamente com densas impressões (DALMA NASCIMENTO).

maria azenha disse:
Querido Rogel,

“ Fios de Luz, aromas vivos”, uma sua leitura magistral . Nos entrega uma chave que abre mil poemas dentro de cada poema . portas que se abrem continuamente.Infinitos dentro de infinitos, auroras que fazem o quê diante da morte?
Sinto-me pequena criança a descobrir nos mil espelhos a voz que sempre chama .
Como refere , através de Cage: “ Poesia é não ter nada a dizer e dizer: não possuímos nada”.
Ao lê-lo , durante a noite, fui registando alguns aromas que as suas palavras e os poemas de “ Retrato de Mãe” de Jorge Tufic me trouxeram:
Lembro-me destes que se cruzaram,
Estava na primavera.
E a morte era um sonho em branco.
Neste “ Retrato de mãe” as suas reflexões remeteram-me para as Matrioshkas, umas dentro de outras, em que a última é a única que não é oca. “ …a alma sai inteira, como quem abre a luz da primavera.”, disse-o.
Vou voltar a este livro com mil livros dentro, sempre que a Voz me chamar.
Estou maravilhada.
Abraço grande,
maria azenha
SOBRE "FIOS DE LUZ"
"Já comecei a ler e estou achando o livro o máximo: sua análise é tão bela e poética quanto os poemas do Tufic (LEILA MICCOLIS) - "Fios de luz, aromas vivos", constituido por 15 sonetos pós-modernos de autoria do excepcional poeta Jorge Tufic, com um tema que sempre desperta muito amor e,com a competente análise, comentários e interpretação de um virtuoso mestre como você, - o livro é uma joia. Parabéns". (Ursulita Alfaia) - "Estou lendo Fios de luz, admirando a beleza, a sutileza e a atenção com que ouve e compreende o belo poema de Tufic" (Jefferson Bessa) "Querido Rogel, sua leitura dos sonetos de Tufic é pura poesia. Estou encantada com "Fios de luz"!Muito obrigada por me brindar com o livro e sua linda dedicatória.(MARCIA SANCHEZ LUZ) - "Retrato de Mãe" , poemas de Jorge Tufic que Rogel vai cautelosamente desvendando em sua análise. Como um mestre de cerimônias, convida-nos a passear pelos quinze sonetos. Pleno de ensinamentos e toques bibliográficos que nos levam à reflexão sobre caminhos da “teoria literária” ao longo dos anos. Assim, o livro “Fios de luz, aromas vivos...” trouxe para mim momento de compreensão maior sobre a delicadeza e a força do texto poético sob a ótica de Rogel Samuel. Muito obrigada por esse presente. (Bernardina de Oliveira) - Magnífica a sua intrepretação de Retrato de Mãe, de Jorge Tufic.Você fez um ensaio filosófico no livro Fios de Luz, Aromas Vivos:A sua análise é algo extraordinário, simplesmente diáfano e iluminado.O logos e o diálogo estão presentes na sua exata dimensão, na dimensãoda pólis, enfim, na organização imaginária do ser humano, do filho que nãoesquece nunca de sua querida e amada Mãe. Sempre lembrada.Parabéns! (Clark Varajão) Não posso deixar de comentar minha emoção ao término da leitura do poema e de sua análise, Rogel! O poema deve ter sido escrito com alguma artéria do coração que se fez pena para que ele convertesse um soneto tão próximo ao amor que se diz ser sentido pelo coração. Chorei muito, e nunca li nada tão emocionante que fluía a cada verso como se fosse música. A recordação da viagem, no XII , lembranças que em minha mente se misturaram à uma viagem que fazia sua mãe, pata depois (?) talvez ter um novo encontro. O Líbano e toda refeição descrita com tanto carinho que hortelãzinhas , podia ser sentida no olfato e na alegria dos encontros às refeições.
FIQUEI EXTASIADA!Complemento com a maravilhosa análise feita por você, com tanta sabedoria, revelando um professor, um mestre na literatura.Parabéns, amigo. Você é GRANDE!Beijos
Mirze ALBUQUERQUE.

sábado, 18 de janeiro de 2014

NEUZA MACHADO - ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO

NEUZA MACHADO - ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO

 
 
 

A Narrativa e os Personagens

 
No princípio, o texto imita os autores amazonenses do auge da época da borracha, que eram imitadores de Euclides da Cunha.[i]
 
            Para o critério de um resultado considerável de meu pensar reflexivo, sobre o romance O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel, o préstimo da Entrevista do autor à jornalista Tânia Gabrielli-Pohlmann aparecerá, aqui, como registro às minhas induções analítico-fenomenológicas sobre sua diferenciada criatividade ficcional. Por este auxílio do próprio escritor, entendo os desempenhos dos dois narradores deste relato ficcional, sobre o esplendor e decadência do Império Amazônico, como autênticas rubricas pós-modernas/pós-modernistas de Segunda Geração. Verifico, outrossim, por meio de uma reflexão teórico-crítica abrangente, que o Ribamar-Narrador poderá ser avaliado como alter ego do escritor comprometido com suas leituras diárias, e, ao mesmo tempo, propenso a impregnar-se criativamente das mesmas, transformando-as em fontes de produção literária ficcional.
Diz Rogel que, no princípio, o seu texto buscou imitar os autores amazonenses do auge da época da borracha, que eram também imitadores de Euclides da Cunha. O fato é que o escritor de Os Sertões, aquele que tanto se impressionou com os problemas do sertanejo, principalmente os habitantes do Alto Sertão (os realmente “fortes”), em confronto com os “enfraquecidos” sertanejos da caatinga (os próximos, do “brejo”, onde, à época, desnutridos, a seca os exterminava com maior facilidade), ao visitar a região amazonense, e ao escrever sobre a mesma, impressionou-se teluricamente (atentar para a etimologia da palavra), legando aos historiadores (e apreciadores de impecáveis estilos literários) sensibilíssimas páginas de puro encantamento, mas não logrou traduzir em palavras plurissignificativas ─ criativas ─ aquilo que entendo por verdadeira arte literária (fosse no âmbito da miséria humana, que grassava no Amazonas do princípio do século XX, ou da beleza estonteante de um lugar reconhecidamente de pura maravilha e incríveis singularidades). Euclides da Cunha, diferente de sua atuação como criador ímpar em Os Sertões, em seus textos sobre o Amazonas, ao ocupar-se das virtudes e/ou os problemas daquela região, não alcançou (pelo meu ponto de vista), no âmbito da criação literária, suas peculiaridades riquíssimas, atuando, por outro lado, como repórter impressionista, a observar tensamente, mas por uma ótica sintagmática, as inúmeras mazelas que assolavam aquele “paraíso” já maculado por exigências capitalistas (o que poderia ser um dado singular no espaço da criatividade paradigmática), excluindo assim a possibilidade de recriar o ambiente da Floresta artisticamente e de obter o ensejo de transformar aqueles textos (reconhecidamente de impecáveis qualidades discursivas, no entanto, lineares) em algo “incômodo” (incomum criação literária) para os leitores de sua época e para os leitores do futuro.
Euclides da Cunha colocou o Amazonas à margem da história pois se encontrava submisso à idéia de que a região estava separada dos ideais políticos do Novo Mundo Americano, desde a conquista colonial dos espanhóis ao norte da América do Sul (século XVI) e, posteriormente, século XVII, de 1580 a 1640, quando os reis espanhóis se apropriaram do trono português e da Colônia do Brasil. A verdade é que o anterior pensamento euclidiano permaneceu incólume até aos anos finais do século XX, porque a região amazônica resistiu aos liames da colonização espanhola nos países fronteiriços, à época colonial, e, posteriormente, à colonização portuguesa da Terceira Dinastia Orleans e Bragança, após à regeneração. Até meados do século XIX não se tornaram notórios, naquelas paragens do Estado do Amazonas e Acre, mais próximas da fronteira com Peru e Bolívia, os conhecidos, historicamente falando, assentamentos comerciais dos colonizadores. Esta constatação evidencia a sobredita “marginalidade” constatada por Euclides da Cunha nos anos iniciais do século XX. O que Euclides percebeu e comprovou, em seu escrito documental sobre a região amazônica, próxima às fronteiras de domínio espanhol, é que a “marginalidade” do território, apesar dos aventureiros que ali se estabeleceram desde o início da colonização, principalmente os não-portugueses ou pouquíssimos portugueses, se encontrava politicamente aquém do desenvolvimento colonial das outras regiões do Brasil.
Por este ângulo, percebo o Manixi rogeliano, originário do final do século XIX, um Manixi governado por um ditador sui generis de origem francesa. Enquanto os espanhóis, primeiramente, e portugueses, posteriormente, colocaram a região distanciada dos valores aproximados das antigas regras coloniais, transformando-a numa espécie de local periférico, um lugar desconhecido, onde poucos aventureiros ousavam explorar, lá pelos idos do século XVIII e início do XIX, aventureiros de outras nacionalidades por ali aportaram, submetendo alguma etnias indígenas e os caboclos ao seus domínios. Na verdade, os colonizadores (espanhóis e portugueses) possuíam extensões de terras brasileiras menos problemáticas para a colonização e, por isto, não persistiram na busca exploratória, devido às dificuldades de locomoção, às doenças tropicais, aos ataques dos indígenas, aos ataques dos animais ferozes da Floresta, e muitos outros empecilhos. Tais embaraços não perturbavam os aventureiros de outros reinos europeus, em seus anseios de domínio e enriquecimento de livre comércio. Sobre esse itinerário dificultoso, o narrador-personagem de Rogel Samuel, o Ribamar de Sousa, iniciando a sua viagem ficcional em 1897, oferece-me informações estimáveis:
 
Porém embarcado chegaria em Manaus sem tropeços depois de 6 dias de viagem a 8 milhas por hora. E 2 dias mais tarde passava pela Boca do Purus, 5 dias após entrava na Foz do Juruá. Não navegávamos dia e noite? Na Foz do Juruá o Rio Solimões mede 12 km de largura e pássaros de vôo curto (o jacamim, o mutum, o cojubim) não conseguem atravessar, morrendo cansados afogados no fundo de ondas pinceladas de amarelo da travessia. Em 8 dias de navegação pelo Juruá chegávamos no Rio Tarauacá e atracávamos em São Felipe, de 45 casas, vila bonita, e arrumada. 9 dias depois entrávamos no Rio Jordão, de onde não prosseguiu o Barão, que não tinha calado, a gente seguindo desse modo de canoa pelo Igarapé Bom Jardim, subindo pois e encontrando nosso termo e destino, a ponta do nosso nó, o término, o marco extremo de nós mesmos, o mais longínquo e interno lugar do orbe terrestre ─ atingíamos finalmente o Igarapé do Inferno, limite do fim do mundo onde se encontrava, e envolto no peso de sua surpresa e fama, o lendário, o mítico, o infinito Seringal Manixi ─ 40 dias depois de minha partida de Belém, 3 meses e 5 dias desde a minha partida de Patos.[ii]
 
Mas não disse que vinha à procura de Tio Genaro e meu irmão Antônio, aviados no Manixi. Não. Pois eles tinham sido trabalhadores seringueiros do Rio Jantiatuba, no Seringal Pixuna, a 1.270 milhas da cidade de Manaus, onde anos depois naufragaria o Alfredo. Eles freqüentaram o Rio Eiru, numa volta quase em sacado, e dali partiram em chata, barco e igarité até ao Rio Gregório, onde trabalharam para os franceses, e de lá partiram para o Rio Um, para o Paraná da Arrependida, aviados livres que eram, subindo o Tarauacá até o ponto onde dizem foi morto o filho de Euclides da Cunha, que delegado era, numa sublevação de seringueiros. Depois viajaram. E foram para o Riozinho do Leonel, seguiram para o Tejo, pelo Breu, pelo belo Igarapé Corumbam – o magnífico! –, pelo Hudson, pelo Paraná Pixuna, o Moa, o Juruá-mirim até o Paraná Ouro Preto onde, pelo Paraná das Minas entraram pelo Amônea, chegando ao Paraná dos Numas, perto do Paraná São João e de um furo sem nome que vai dar num lugar desconhecido.[iii]
 
Os aventureiros europeus, como os franceses e alemães, à época, por não se acharem os “donos” da Colônia, penetraram naquele templo de pureza mítica, conhecido como Floresta Amazônica, com a intenção evidente de apropriação do local. O fato era que os colonizadores espanhóis e/ou portugueses, cada um em seu tempo histórico, estavam mais preocupados com a costa brasileira, alvo de vários ataques de navios piratas (ingleses, holandeses, franceses), do que propriamente, por motivos óbvios, com a região amazônica da fronteira latino-americana: julgavam que terras tão inóspitas não iriam merecer a atenção dos aventureiros de outros reinos de Além-Mar. Por este aspecto, retomando as minhas inferências sobre o Manixi ficcional rogeliano, a partir do reconhecimento histórico de uma região sem igual, além de repensar a presença do personagem francês Pierre Bataillon, como chefe importante da região, medito sobre a presença missionária dos padres católicos alemães, na figura do personagem Frei Lothar, objetivando catequizar os indígenas e mestiços, mas sofrendo os males da expatriação, afundando-se no desmazelo corporal e no vício da bebida, e, conseqüentemente, na desilusão espiritual.
O valor histórico dos textos de Euclides é inestimável. Os textos, sobre a realidade amazonense do início do século XX, são bem elaborados (não há como contestar a capacidade discursiva do escritor), há ali a marca dos que sabem escrever e transmitir pensamentos e conhecimentos em forma de narrativa, mas, reafirmo, não há o “desconforto” verticalizante do texto artístico (a possibilidade de o leitor interagir com os cogitos superiores do escritor). Por exemplo, a Ilha de Marapatá, para Euclides, é o “mais original dos lazaretos ─ um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência...”[iv]. Esta horizontal informação de Euclides não atinge o cogito reflexivo do leitor, em outras palavras, não promove a “eternização” literária do lugar, mesmo que demonstre textualmente que a Ilha de Marapatá é o espaço da angustiante solidão. No entanto, o Pós-Moderno/Modernista de Primeira Geração Mário de Andrade recebeu a informação, com certeza por via euclidiana, avaliou-a, e soube transformá-la em ficção-arte. Com sua capacidade de interagir criativamente com as palavras, Mário de Andrade obsequiou os leitores de seu presente histórico (e os do futuro) com uma lendária Ilha de Marapatá, onde seu personagem Macunaíma havia deixado a consciência ao sair para o espaço universal.


[i] Trecho retirado da Entrevista de Rogel Samuel à jornalista Tânia Gabrielli-Pohlmann.
[ii] Idem: 11 - 12.
[iii] Idem: 12.
[iv] CUNHA, Euclides. “Terra sem História: Amazônia”. À Margem da História. São Paulo: Martin Claret, 2006: 28.