terça-feira, 10 de junho de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
SOBRE "FIOS DE LUZ"
maria azenha disse:
Querido Rogel,
“ Fios de Luz, aromas vivos”, uma sua leitura magistral. Nos entrega uma chave que abre mil poemas dentro de cada poema, portas que se abrem continuamente.
Infinitos dentro de infinitos, auroras que fazem o quê diante da morte?
Sinto-me pequena criança a descobrir nos mil espelhos a voz que sempre chama .
Como refere, através de Cage: “ Poesia é não ter nada a dizer e dizer: não possuímos nada”.
Ao lê-lo, durante a noite, fui registando alguns aromas que as suas palavras e os poemas de “ Retrato de Mãe” de Jorge Tufic me trouxeram:
Lembro-me destes que se cruzaram,
Estava na primavera.
E a morte era um sonho em branco.
Neste “ Retrato de mãe” as suas reflexões remeteram-me para as Matrioshkas, umas dentro de outras, em que a última é a única que não é oca.
“ …a alma sai inteira, como quem abre a luz da primavera.”, disse-o.
Vou voltar a este livro com mil livros dentro, sempre que a Voz me chamar.
Estou maravilhada.
Abraço grande,
maria azenha
(Lisboa)
SOBRE "FIOS DE LUZ"
"Já comecei a ler e estou achando o livro o máximo: sua análise é tão bela e poética quanto os poemas do Tufic (LEILA MICCOLIS) - "Fios de luz, aromas vivos", constituido por 15 sonetos pós-modernos de autoria do excepcional poeta Jorge Tufic, com um tema que sempre desperta muito amor e,com a competente análise, comentários e interpretação de um virtuoso mestre como você, - o livro é uma joia. Parabéns. (Ursulita Alfaia) - "Estou lendo Fios de luz, admirando a beleza, a sutileza e a atenção com que ouve e compreende o belo poema de Tufic (Jefferson Bessa)"
"Querido Rogel, sua leitura dos sonetos de Tufic é pura poesia. Estou encantada com "Fios de luz"!Muito obrigada por me brindar com o livro e sua linda dedicatória.(MARCIA SANCHEZ LUZ) - "Retrato de Mãe" , poemas de Jorge Tufic que Rogel vai cautelosamente desvendando em sua análise. Como um mestre de cerimônias, convida-nos a passear pelos quinze sonetos. Pleno de ensinamentos e toques bibliográficos que nos levam à reflexão sobre caminhos da “teoria literária” ao longo dos anos. Assim, o livro “Fios de luz, aromas vivos...” trouxe para mim momento de compreensão maior sobre a delicadeza e a força do texto poético sob a ótica de Rogel Samuel. Muito obrigada por esse presente.( Bernardina de Oliveira) - Magnífica a sua intrepretação de Retrato de Mãe, de Jorge Tufic.Você fez um ensaio filosófico no livro Fios de Luz, Aromas Vivos:A sua análise é algo extraordinário, simplesmente diáfano e iluminado.O logos e o diálogo estão presentes na sua exata dimensão, na dimensãoda pólis, enfim, na organização imaginária do ser humano, do filho que nãoesquece nunca de sua querida e amada Mãe. Sempre lembrada.Parabéns! (Clark Varajão)
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
PRECIOSAS OPINIÕES
SOBRE O "TEATRO AMAZONAS"
Recebi teu livro sobre a construção do Teatro do Amazonas.Maravilhosos os passos em volta da Floresta Amazonica que mistura seu aroma selvagem com o trabalho da construção do Teatro. Um Teatro de Opera, no centro da cidade de um Estado, é o Despontar da Arte Clássica em meio ao neo-barroco do recém nascido Amazonas (Clarisse de Oliveira). -
ALGUMAS OPINIÕES SOBRE Rogel Samuel:
Rogel! Fiquei tão impressionada com o livro e maravilhada porque era muito além do que eu imaginava, que li ontem e ontem mesmo acabei. Sempre que me agrada sou assim, por mais longo que seja, não consigo parar. Mas quando isso acontece, percebo de imediato que é o autor que prende. Sei que tinha e tenho interesse pelo nosso Amazonas, mas você escreve bem demais, Consegue passar imagens à leitura. Vou colocar no meu perfil, como livro preferido , e já influenciei muitas pessoas. Isto só aconteceu comigo duas vezes, quando li O Ventre de Carlos Heitor Cony e o seu.
MUITO OBRIGADA! (MIRZE SOUZA)
"Poucas vezes li um texto tão bem condensado sobre teoria literária. Felicito-o pela plena realização, coisa rara no gênero" (NELSON WERNECK SODRÉ). «O meu abraço de parabéns pelo muito que aprendi com você. O estudo sobre o Rosa é mais do que excelente - é perfeito. Um grande abraço deste seu velho admirador e amigo». (JOSUÉ MONTELLO) «Hoje trocamos de lugar, você na cátedra, eu na assistência.» (ALCEU AMOROSO LIMA)"É uma obra-prima" (ELIANA BUENO-RIBEIRO) "são raros os romances históricos sobre temas brasileiros, e a visão de Rogel Samuel é primorosa" (LEILA MÍCCOLIS) “Escreveu o quadro de uma época( 1897) com muito vigor e beleza, significativamente com densas impressões (DALMA NASCIMENTO).
maria azenha disse:
Querido Rogel,
“ Fios de Luz, aromas vivos”, uma sua leitura magistral . Nos entrega uma chave que abre mil poemas dentro de cada poema . portas que se abrem continuamente.Infinitos dentro de infinitos, auroras que fazem o quê diante da morte?
Sinto-me pequena criança a descobrir nos mil espelhos a voz que sempre chama .
Como refere , através de Cage: “ Poesia é não ter nada a dizer e dizer: não possuímos nada”.
Ao lê-lo , durante a noite, fui registando alguns aromas que as suas palavras e os poemas de “ Retrato de Mãe” de Jorge Tufic me trouxeram:
Lembro-me destes que se cruzaram,
Estava na primavera.
E a morte era um sonho em branco.
Neste “ Retrato de mãe” as suas reflexões remeteram-me para as Matrioshkas, umas dentro de outras, em que a última é a única que não é oca. “ …a alma sai inteira, como quem abre a luz da primavera.”, disse-o.
Vou voltar a este livro com mil livros dentro, sempre que a Voz me chamar.
Estou maravilhada.
Abraço grande,
maria azenha
SOBRE "FIOS DE LUZ"
"Já comecei a ler e estou achando o livro o máximo: sua análise é tão bela e poética quanto os poemas do Tufic (LEILA MICCOLIS) - "Fios de luz, aromas vivos", constituido por 15 sonetos pós-modernos de autoria do excepcional poeta Jorge Tufic, com um tema que sempre desperta muito amor e,com a competente análise, comentários e interpretação de um virtuoso mestre como você, - o livro é uma joia. Parabéns". (Ursulita Alfaia) - "Estou lendo Fios de luz, admirando a beleza, a sutileza e a atenção com que ouve e compreende o belo poema de Tufic" (Jefferson Bessa) "Querido Rogel, sua leitura dos sonetos de Tufic é pura poesia. Estou encantada com "Fios de luz"!Muito obrigada por me brindar com o livro e sua linda dedicatória.(MARCIA SANCHEZ LUZ) - "Retrato de Mãe" , poemas de Jorge Tufic que Rogel vai cautelosamente desvendando em sua análise. Como um mestre de cerimônias, convida-nos a passear pelos quinze sonetos. Pleno de ensinamentos e toques bibliográficos que nos levam à reflexão sobre caminhos da “teoria literária” ao longo dos anos. Assim, o livro “Fios de luz, aromas vivos...” trouxe para mim momento de compreensão maior sobre a delicadeza e a força do texto poético sob a ótica de Rogel Samuel. Muito obrigada por esse presente. (Bernardina de Oliveira) - Magnífica a sua intrepretação de Retrato de Mãe, de Jorge Tufic.Você fez um ensaio filosófico no livro Fios de Luz, Aromas Vivos:A sua análise é algo extraordinário, simplesmente diáfano e iluminado.O logos e o diálogo estão presentes na sua exata dimensão, na dimensãoda pólis, enfim, na organização imaginária do ser humano, do filho que nãoesquece nunca de sua querida e amada Mãe. Sempre lembrada.Parabéns! (Clark Varajão) Não posso deixar de comentar minha emoção ao término da leitura do poema e de sua análise, Rogel! O poema deve ter sido escrito com alguma artéria do coração que se fez pena para que ele convertesse um soneto tão próximo ao amor que se diz ser sentido pelo coração. Chorei muito, e nunca li nada tão emocionante que fluía a cada verso como se fosse música. A recordação da viagem, no XII , lembranças que em minha mente se misturaram à uma viagem que fazia sua mãe, pata depois (?) talvez ter um novo encontro. O Líbano e toda refeição descrita com tanto carinho que hortelãzinhas , podia ser sentida no olfato e na alegria dos encontros às refeições.
FIQUEI EXTASIADA!Complemento com a maravilhosa análise feita por você, com tanta sabedoria, revelando um professor, um mestre na literatura.Parabéns, amigo. Você é GRANDE!Beijos
Mirze ALBUQUERQUE.
sábado, 18 de janeiro de 2014
NEUZA MACHADO - ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO
NEUZA MACHADO - ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO
A Narrativa e os Personagens
No
princípio, o texto imita os autores amazonenses do auge da época da borracha,
que eram imitadores de Euclides da Cunha.[i]
Para
o critério de um resultado considerável de meu pensar reflexivo, sobre o
romance O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel, o préstimo da Entrevista
do autor à jornalista Tânia Gabrielli-Pohlmann aparecerá, aqui, como registro
às minhas induções analítico-fenomenológicas sobre sua diferenciada
criatividade ficcional. Por este auxílio do próprio escritor, entendo os
desempenhos dos dois narradores deste relato ficcional, sobre o esplendor e
decadência do Império Amazônico, como autênticas rubricas
pós-modernas/pós-modernistas de Segunda Geração. Verifico, outrossim, por meio
de uma reflexão teórico-crítica abrangente, que o Ribamar-Narrador poderá ser
avaliado como alter ego do escritor comprometido com suas leituras diárias, e,
ao mesmo tempo, propenso a impregnar-se criativamente das mesmas,
transformando-as em fontes de produção literária ficcional.
Diz Rogel que,
no princípio, o seu texto buscou imitar os autores amazonenses do auge da época
da borracha, que eram também imitadores de Euclides da Cunha. O fato é que o
escritor de Os Sertões, aquele que tanto se impressionou com os
problemas do sertanejo, principalmente os habitantes do Alto Sertão (os
realmente “fortes”), em confronto com os “enfraquecidos” sertanejos da caatinga
(os próximos, do “brejo”, onde, à época, desnutridos, a seca os exterminava com
maior facilidade), ao visitar a região amazonense, e ao escrever sobre a mesma,
impressionou-se teluricamente (atentar para a etimologia da palavra),
legando aos historiadores (e apreciadores de impecáveis estilos literários)
sensibilíssimas páginas de puro encantamento, mas não logrou traduzir em palavras
plurissignificativas ─ criativas ─ aquilo que entendo por verdadeira arte
literária (fosse no âmbito da miséria humana, que grassava no Amazonas do
princípio do século XX, ou da beleza estonteante de um lugar reconhecidamente
de pura maravilha e incríveis singularidades). Euclides da Cunha, diferente de
sua atuação como criador ímpar em Os Sertões, em seus textos sobre o
Amazonas, ao ocupar-se das virtudes e/ou os problemas daquela região, não
alcançou (pelo meu ponto de vista), no âmbito da criação literária, suas
peculiaridades riquíssimas, atuando, por outro lado, como repórter
impressionista, a observar tensamente, mas por uma ótica sintagmática, as
inúmeras mazelas que assolavam aquele “paraíso” já maculado por exigências
capitalistas (o que poderia ser um dado singular no espaço da criatividade
paradigmática), excluindo assim a possibilidade de recriar o ambiente da
Floresta artisticamente e de obter o ensejo de transformar aqueles textos
(reconhecidamente de impecáveis qualidades discursivas, no entanto, lineares)
em algo “incômodo” (incomum criação literária) para os leitores de sua época e
para os leitores do futuro.
Euclides da
Cunha colocou o Amazonas à margem da história pois se encontrava
submisso à idéia de que a região estava separada dos ideais políticos do Novo
Mundo Americano, desde a conquista colonial dos espanhóis ao norte da América
do Sul (século XVI) e, posteriormente, século XVII, de 1580 a 1640, quando os
reis espanhóis se apropriaram do trono português e da Colônia do Brasil. A
verdade é que o anterior pensamento euclidiano permaneceu incólume até aos anos
finais do século XX, porque a região amazônica resistiu aos liames da
colonização espanhola nos países fronteiriços, à época colonial, e,
posteriormente, à colonização portuguesa da Terceira Dinastia Orleans e
Bragança, após à regeneração. Até meados do século XIX não se tornaram
notórios, naquelas paragens do Estado do Amazonas e Acre, mais próximas da
fronteira com Peru e Bolívia, os conhecidos, historicamente falando, assentamentos
comerciais dos colonizadores. Esta constatação evidencia a sobredita
“marginalidade” constatada por Euclides da Cunha nos anos iniciais do século
XX. O que Euclides percebeu e comprovou, em seu escrito documental sobre a
região amazônica, próxima às fronteiras de domínio espanhol, é que a
“marginalidade” do território, apesar dos aventureiros que ali se estabeleceram
desde o início da colonização, principalmente os não-portugueses ou
pouquíssimos portugueses, se encontrava politicamente aquém do desenvolvimento
colonial das outras regiões do Brasil.
Por este
ângulo, percebo o Manixi rogeliano, originário do final do século XIX, um
Manixi governado por um ditador sui generis de origem francesa. Enquanto
os espanhóis, primeiramente, e portugueses, posteriormente, colocaram a região
distanciada dos valores aproximados das antigas regras coloniais,
transformando-a numa espécie de local periférico, um lugar desconhecido, onde
poucos aventureiros ousavam explorar, lá pelos idos do século XVIII e início do
XIX, aventureiros de outras nacionalidades por ali aportaram, submetendo alguma
etnias indígenas e os caboclos ao seus domínios. Na verdade, os colonizadores
(espanhóis e portugueses) possuíam extensões de terras brasileiras menos
problemáticas para a colonização e, por isto, não persistiram na busca
exploratória, devido às dificuldades de locomoção, às doenças tropicais, aos
ataques dos indígenas, aos ataques dos animais ferozes da Floresta, e muitos
outros empecilhos. Tais embaraços não perturbavam os aventureiros de outros
reinos europeus, em seus anseios de domínio e enriquecimento de livre comércio.
Sobre esse itinerário dificultoso, o narrador-personagem de Rogel Samuel, o
Ribamar de Sousa, iniciando a sua viagem ficcional em 1897, oferece-me informações
estimáveis:
Porém
embarcado chegaria em Manaus sem tropeços depois de 6 dias de viagem a 8 milhas
por hora. E 2 dias mais tarde passava pela Boca do Purus, 5 dias após entrava
na Foz do Juruá. Não navegávamos dia e noite? Na Foz do Juruá o Rio Solimões
mede 12 km de largura e pássaros de vôo curto (o jacamim, o mutum, o cojubim)
não conseguem atravessar, morrendo cansados afogados no fundo de ondas
pinceladas de amarelo da travessia. Em 8 dias de navegação pelo Juruá
chegávamos no Rio Tarauacá e atracávamos em São Felipe, de 45 casas, vila
bonita, e arrumada. 9 dias depois entrávamos no Rio Jordão, de onde não
prosseguiu o Barão, que não tinha calado, a gente seguindo desse modo de
canoa pelo Igarapé Bom Jardim, subindo pois e encontrando nosso termo e destino,
a ponta do nosso nó, o término, o marco extremo de nós mesmos, o mais longínquo
e interno lugar do orbe terrestre ─ atingíamos finalmente o Igarapé do Inferno,
limite do fim do mundo onde se encontrava, e envolto no peso de sua surpresa e
fama, o lendário, o mítico, o infinito Seringal Manixi ─ 40 dias depois de
minha partida de Belém, 3 meses e 5 dias desde a minha partida de Patos.[ii]
Mas não disse
que vinha à procura de Tio Genaro e meu irmão Antônio, aviados no Manixi. Não.
Pois eles tinham sido trabalhadores seringueiros do Rio Jantiatuba, no Seringal
Pixuna, a 1.270 milhas da cidade de Manaus, onde anos depois naufragaria o
Alfredo. Eles freqüentaram o Rio Eiru, numa volta quase em sacado, e dali
partiram em chata, barco e igarité até ao Rio Gregório, onde trabalharam para
os franceses, e de lá partiram para o Rio Um, para o Paraná da Arrependida,
aviados livres que eram, subindo o Tarauacá até o ponto onde dizem foi morto o
filho de Euclides da Cunha, que delegado era, numa sublevação de seringueiros.
Depois viajaram. E foram para o Riozinho do Leonel, seguiram para o Tejo, pelo
Breu, pelo belo Igarapé Corumbam – o magnífico! –, pelo Hudson, pelo Paraná
Pixuna, o Moa, o Juruá-mirim até o Paraná Ouro Preto onde, pelo Paraná das
Minas entraram pelo Amônea, chegando ao Paraná dos Numas, perto do Paraná São
João e de um furo sem nome que vai dar num lugar desconhecido.[iii]
Os
aventureiros europeus, como os franceses e alemães, à época, por não se acharem
os “donos” da Colônia, penetraram naquele templo de pureza mítica, conhecido
como Floresta Amazônica, com a intenção evidente de apropriação do local. O
fato era que os colonizadores espanhóis e/ou portugueses, cada um em seu tempo
histórico, estavam mais preocupados com a costa brasileira, alvo de vários
ataques de navios piratas (ingleses, holandeses, franceses), do que
propriamente, por motivos óbvios, com a região amazônica da fronteira
latino-americana: julgavam que terras tão inóspitas não iriam merecer a atenção
dos aventureiros de outros reinos de Além-Mar. Por este aspecto, retomando as
minhas inferências sobre o Manixi ficcional rogeliano, a partir do
reconhecimento histórico de uma região sem igual, além de repensar a presença
do personagem francês Pierre Bataillon, como chefe importante da região, medito
sobre a presença missionária dos padres católicos alemães, na figura do
personagem Frei Lothar, objetivando catequizar os indígenas e mestiços, mas
sofrendo os males da expatriação, afundando-se no desmazelo corporal e no vício
da bebida, e, conseqüentemente, na desilusão espiritual.
O valor
histórico dos textos de Euclides é inestimável. Os textos, sobre a realidade
amazonense do início do século XX, são bem elaborados (não há como contestar a
capacidade discursiva do escritor), há ali a marca dos que sabem escrever e
transmitir pensamentos e conhecimentos em forma de narrativa, mas, reafirmo,
não há o “desconforto” verticalizante do texto artístico (a possibilidade de o
leitor interagir com os cogitos superiores do escritor). Por exemplo, a Ilha de
Marapatá, para Euclides, é o “mais original dos lazaretos ─ um lazareto de
almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência...”[iv].
Esta horizontal informação de Euclides não atinge o cogito reflexivo do leitor,
em outras palavras, não promove a “eternização” literária do lugar, mesmo que
demonstre textualmente que a Ilha de Marapatá é o espaço da angustiante
solidão. No entanto, o Pós-Moderno/Modernista de Primeira Geração Mário de
Andrade recebeu a informação, com certeza por via euclidiana, avaliou-a, e
soube transformá-la em ficção-arte. Com sua capacidade de interagir
criativamente com as palavras, Mário de Andrade obsequiou os leitores de seu
presente histórico (e os do futuro) com uma lendária Ilha de Marapatá, onde seu
personagem Macunaíma havia deixado a consciência ao sair para o espaço
universal.
[iv] CUNHA, Euclides. “Terra sem
História: Amazônia”. À Margem da História. São Paulo: Martin Claret,
2006: 28.
A ausência de Neuza Machado
A ausência de Neuza Machado
Cunha e Silva Filho
Conheci Neuza Machado quando, de 1999 a 2006, fui lecionar no curso de Letras da Universidade Castelo Branco, em Realengo, Rio de Janeiro. Não me lembro bem como foi o meu primeiro contato com ela. Só sei que, de repente, já éramos bons colegas no ambiente universitário. Ela lecionava teoria literária; eu, literatura brasileira e, depois, língua inglesa, cheguei mesmo a lecionar também, e por um semestre, literatura americana.
Me lembro bem de que, uma noite, após uma reunião geral com o reitor, saí do auditório e fui para a cantina, lugar de encontro de professores e alunos e lá Neusa me perguntou se eu tinha alguma facilidade de conseguir um editor para um livro dela pronto a ser publicado. Por um ou outro motivo, ela pensava que eu tivesse assim bons contatos, o que não era o meu caso. Ficamos amigos e dessa amizade que cresceu mais com as muitas vezes que, no Centro do Rio, por mera coincidia, nos encontramos tomando o mesmo ônibus para Realengo.
Foi nessas vezes que comecei a conhecê-la melhor. Nessas idas de ônibus, cujo percurso durava uma hora ou mais, dependendo do trânsito, e em ônibus lotado, aproveitávamos para falar principalmente de literatura, de escritores, dos tempos de graduação na Faculdade de Letras da UFRJ, dos bons professores e das dificuldades inerentes aos tempos de estudante. Assim, ia formando minha opinião sobre esta colega que não chegou a ser amiga íntima, mas cujo convívio profissional no mesmo ambiente de trabalho foi suficiente para que sentisse admiração pela sua formação intelectual e seus anseios de estudiosa e pesquisadora sobretudo na sua área de maior interesse, a teoria literária.
Neuza era mineira e tinha muito do que se fala de bem dos mineiros.Por outro lado, a sua personalidade simpática e brincalhona por vezes escondia algo de um temperamento muito crítico e rigoroso com o que fazia na sua vida profissional. Sua visão do fenômeno literário era penetrante, muito seletiva, numa abordagem metodológica que se orientava pela análise semiológica, por ela declaradamente haurida da experiência que teve nas aulas de Anazildo Vasconcelos da Silva, professor da Faculdade de Letras da UFRJ. Na sua dissertação de Mestrado, O narrador toma a vez (Rio de Janeiro: N. Machado, 2006, 120 p.) em que discute o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, depois editada por conta própria, em 2006, Neuza deixa bem nítida essa inclinação às aproximações semiológicas (Greimas, Barthes, Anazildo Vasconcelos da Silva e outros) e sociológicas (Goldaman, Luckács, Weber e outros) do fenômeno literário. Percebe-se que neste estudo ela mobilizava um instrumental teórico diversificado, pluralista, no qual não havia nenhuma prevenção dogmática e radical na interpretação da obra literária.
Não li sua tese de doutoramento, a qual da mesma forma, deu continuidade e aprofundamento à obra de Guimarães Rosa, porém, nesse estudo me recordo bem de que se serviu largamente do pensamento de Bachelard que me parece deve ter sido a sua viga-mestra na condução do desenvolvimento da sua tese. Penso que quem a orientou foi o professor Rogel Samuel, um escritor de cuja obra Neuza iria se ocupar com dedicação e competência, tornado-se provavlemente a sua maior intérprete e divulgadora.
Neuza foi ficcionista, além de crítica e ensaísta. Na sua coluna Letras, no Entretextos, deixou páginas que demonstram sobejamente sua capacidade de análise e sua maneira original de absorver o que a sua formação lhe propiciou em anos de estudos, leituras e de experiência docente. Não podemos negar a sua vocação para o debate teórico no sentido mais elevado do termo.
Neuza era uma mulher batalhadora, sobretudo no que pretendia fazer no domínio intelectual, Percebendo claramente quão é espinhoso se publicar no país através das grandes editoras, ela não perdeu tempo, criou a sua própria “editora”, NMachado, cuidou de todos os trâmites burocráticos e saiu vitoriosa: editou sua dissertação de mestrado e possivelmente alguns outros trabalhos. Ela cuidava praticamente de tudo para que seus livros viessem a público. Era, pois, uma determinada.
Respeitada por seus pares na Universidade.Castelo Branco, mulher corajosa ao defender seus pontos de vista, sobretudo no campo teórico, Neuza Machado antes de ter lecionado naquela universidade, também ensinou na Universidade Estácio de Sá, na Universidade Sousa Marques e, por um ano, saindo do Rio de Janeiro, lecionou na Universidade Federal do Pará ou Amazonas, não sei bem. Anos antes, participou de um congresso em Paris ao lado de Rogel Samuel, de quem sempre foi uma admiradora e amiga. Me recordo de que, na Castelo Branco, adotava livros de Samuel Rogel, que, de resto, foi seu professor na Faculdade de Letras da UFRJ, no tempo em que funcionou na Avenida Chile antes de se transferir definitivamente para o campus do Fundão.
Uma outra lembrança que me ocorre de Neuza, durante nossas conversas regadas a boas gargalhadas que às vezes surpreendiam os outros passageiros do ônibus que nos levava para a Universidade Castelo Branco, era a sua disposição de sugerir boas dicas naquela época em que eu estava escrevendo minha tese de doutorado. Eram sugestões inteligentes que me apontavam dimensões novas ao meu estudo do conto de João Antônio ( 1937-1996).
Tenho, sim, saudades de nossas conversas, nas quais Neuza me superava nos inúmeros relatos de fatos passados de sua vida de universitária,de professora, alguns pitorescos, alguns divertidos, outros de natureza amorosa, sobre situações que presenciou e vivenciou no mundo acadêmico que se tornariam mais segredos, casos particulares do mundo dos vivos e do tumultuado relacionamento entre as pessoas, confidências não publicáveis do ponto de vista de gaurdar segredo. Era uma ótima causeuse a querida Neuza Machado.
Ela sabia de sua importância, de seu valor, de sua capacidade como profissional aberta e disponível ao universo do saber e da inteligência. A notícia de seu falecimento prematuro me deixa menos feliz apesar do meu afastamento há sete anos da Universidade Castelo Branco e sem ter tido praticamente mais contato com ela. A distâcia, nas grandes cidades, muitas vezes nos separam uns dos outros.Seus alunos sem dúvida hão de sentir muito a sua falta, a sua palavra alegre, muitas vezes brincalhona e educadamente irônica. À sua família e amigos envio daqui os meus sentimetos de muito pesar.
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
ENTREVISTA DE R. SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO
ENTREVISTA DE ROGEL SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO
GP - Rogel, quando foi e como se deu o encontro entre o amazonense filho de francês com brasileira e neto de rico comerciante da borracha com as artes, notadamente a Literatura?
Primeiro é bom saber: nasci pobre e não vi a riqueza de Maurice Samuel. Nasci na decadência. Você nem imagina com quem comecei: foi com Camões... Num livro didático de infância havia um trecho da Elegia que começa assim:
"Poeta Simónides, falando ? co capitão Temístocles, um dia..."
O trecho diz:
Oh ! lavradores bem-aventurados !
Se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados !
dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
não vêem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
E por aí vai. Eu fiquei muito impressionado. Até hoje tenho emoção com a simplicidade dos versos, a evocação. Foi Camões quem me despertou, veja só. E depois, Manuel Bandeira. Li menino. O texto de Camões está no nosso blog.
Depois ganhei uma antologia, que até hoje considero a melhor: «Obras primas da poesia universal», de Sergio Milliet. Editora Martins. Esgotada.
GP - Quais as influências da infância e adolescência marcaram a formação dos primeiros versos, primeiros escritos, considerando a publicação do seu primeiro poema num jornal nessa fase da sua vida?
Sim, comecei a escrever nos jornais de Manaus muito cedo, com 16, 17 anos. Naquela época era assim. Os jornais estavam abertos. Mesmo para o que não prestava. Eu me lembro de uma página muito curiosa de «O jornal do comércio», órgão dos Diários Associados em Manaus, de 16 de abril de 1961, em que há um conto meu chamado «Sofia», ao lado um novo poema de Drummond, em baixo havia uma crônica de Guilherme Figueiredo e no rodapé um artigo de Sergio Milliet, intitulado «O dia amanheceu cantando». Eu tinha 18 anos. O jornal era dirigido por Felipe Daou, ainda vivo. Aquele pessoal era mesmo irresponsável.
GP - Apesar de escrever seus versos desde a adolescência, você, pelas suas publicações, começa com Crítica da Escrita, em 1979. A poesia ficou de lado ou o professor que se impunha? Este é o resultado de seus estudos e trabalhos na universidade?
Quando me mudei para o Rio, em 1961, publiquei muito pouco. Lembro-me de artigo no «Correio da manhã», que não tenho, e pouca coisa mais. Eu estava mal acostumado: em Manaus você vinha com o original e punha na mesa do editor. No dia seguinte aquilo era publicado com destaque. No Rio, havia um clube fechado. Eu tive as portas abertas para a televisão, através do irmão de uma amiga de Manaus que dirigia a parte comercial da TV Rio, onde trabalharam na mesma época, creio, o Bôni e o Valter Clark. Trabalhei na redação muito pouco tempo e larguei. Era à noite, eu tinha faculdade de manhã. Burrice, talvez. Virei professor. Não procurei mais os jornais, não sou bom vendedor de mim mesmo.
GP - Um fato, eu conheci você primeiro pelo "Manual de teoria literária" na época em que eu fazia Letras, por volta de meados da década de 80, por ai, salvo engano. Hoje esta obra está já com 14 edições. E também, depois, o agradabilíssimo "O que é Teolit?". Como se encontrava o poeta enquanto professor?
Não se encontrava. Eu fui fazer letras porque era assim que eu supunha ser a formação do escritor. Um dia um amigo meu, o Nathanael Caixeiro, que fazia traduções, me apresentou ao pessoal da Vozes. Assim nasceu o "Manual de teoria literária". Anos depois, publiquei ali os três volumes de «Literatura básica». Foram livros com vários autores, que coordenei. Um dia mandei um projeto para os «Primeiros passos», da Brasiliense. O projeto era um livrinho: «O que é teoria literária». Depois de várias tentativas, o livro não saiu, porque invadia o conteúdo de outros títulos. Acabou sendo publicado pela Marco Zero, na época pertencente ao Marcio Souza, como "O que é Teolit?". Publiquei mais 2 livros por conta própria: «Crítica da escrita» 1981; e «O Amante das Amazonas», 1992. Hoje tenho dois livros na praça. O «Novo manual de teoria literária» (Petrópolis, Vozes, 2002. 158p), que está em 3 a edição, livro só meu, atualizado com as modernas teorias. E «O amante das amazonas» (Belo Horizonte, Itatiaia, 2005, 164 p.), que não é só a 2 a edição, mas é um livro revisto. Além disso, houve «A linguagem e a idéia no discurso poético» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1978, dissertação de Mestrado) e «A reconstrução da subjetividade no grande sertão» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1983. 290 p., tese de Doutorado, nunca publicada).
Como professor dei todo tipo de aula: para escolas particulares pobres do primeiro e segundo graus, cursinhos, no subúrbio, em escolas de ricos, no estado, no município, em faculdades particulares.
Para sobreviver dava aula de manhã, de tarde e de noite. Fui professor de latim. Estudei na UFRJ, no Rio de Janeiro, onde fui aluno de Alceu Amoroso Lima, Matoso Câmara, Afrânio Coutinho, Anísio Teixeira. Fiquei uns 10 anos sem publicar, nesse período. Depois, ingressei por concurso na UFRJ, fiz mestrado e doutorado. E me aposentei. Hoje só escrevo.
GP - O poeta aparece publicado só em 90 com "Poemas" e depois com "120 poemas". Fala dessa experiência e resultados desses projetos.
«Poemas» foi uma bela edição artesanal. Os «120 poemas» é um folheto impresso, tenho até hoje. Eu nunca parei de escrever poesia, desde a adolescência até os meus atuais 63 anos. Mas nunca consegui ter confiança no que fazia. Acho que o poeta tem de ser um louco irresponsável e não se avaliar muito. Estou pensando em colocar todos poemas num site, ou publicar em livro.
GP - Como escritor, eu vi o seu "O amante das amazonas", um livro interessantíssimo que li de um fôlego só e onde você mistura ficção e realidade com uma narrativa bem gostosa. Este livro inclusive recebeu sua segunda edição recentemente. Fala do processo de criação, expectativa e resultados com este seu projeto?
Foram dez anos de trabalho, mais de 100 livros lidos e dez versões. Mesmo essa segunda edição foi revista. O livro tem aquilo que você viu, é um mar de estórias em torno daquele Palácio construído no meio da selva. Primeiro fiz uma pesquisa, entrevistei pessoas que ainda se lembravam dos fatos. Li cerca de 100 livros. Depois, devido ao excesso de informações fiquei perdido. Aí resolvi contar para um gravador. Depois de ouvir muitas vezes, voltei a narrar no gravador. Então fiz as várias versões escritas, quase dez. Há algo de romance policial ali, além de ficção científica.
Quanto ao processo de criação... bem, é melhor escrever do que ler um romance. Ao escrever um romance você tem todas as possibilidades do mundo. Porque o mundo não existe, ali: você tem de criá-lo.
Tenho vários projetos. E vários livros escritos na gaveta. Meu único problema é que escrevo muito devagar e trabalho muito o texto. Como nunca fico satisfeito acabo criando várias versões do mesmo livro e perco muito tempo. Tudo meu leva vários anos para sair e a vida é curta. Mas cada livro ganha uma técnica especial só dele.
A minha «obra» literária publicada, aos 63 [na época] anos de idade, é muito pequena. O que eu mais publiquei foram contos e crônicas. Recentemente voltei para os livros maiores.
GP - Rogel, além de professor aposentado, poeta e escritor, você também é webjornalista e escreve regularmente para sites e portais da Internet. Fala, então, da importância da Internet na difusão do seu trabalho.
Vejo na Internet o futuro da literatura. Liberta o escritor da grande media, dos editores. O escritor logo encontra seus leitores ali. Estou publicando minha próxima novela ali, na Internet. Não passo sem Internet. Entro na Internet várias vezes ao dia. Meu mundo hoje é o mundo da Internet.
GP - Qual a avaliação que você faz desse veículo Internet na relação do escritor com o leitor? E desta com o trabalho impresso e frente a frente com o leitor?
Gosto da Internet porque esta média me levou a retomar o que eu poderia chamar de meu público e minha obra. Escrevi uma centena de artigos em jornais impressos, e muito mais na Internet. Penso que o livro vai-se tornar cada vez mais caro, e a web será o grande veículo do futuro. Para a música também. Eu gostaria de ver o Ministério da Cultura disponibilizar toda a obra de Villa Lobos em mp3, mesmo pagando ele os direitos autorais. Porque é muito difícil ouvir certas coisas. Hoje sou um escritor da rede. Se você colocar meu nome num site de busca vai-me encontrar.
GP - Você mantém na rede um sítio pessoal onde publica seus trabalhos literários, livros e, ainda, apresenta um diretório de autores. Qual a proposta deste diretório?
A princípio era uma antologia de vários autores. Tem vários anos. Tentei fazer um site de literatura de qualidade, porque na época não havia. Há livros inteiros. Há clássicos ali, e livros raros. Meu site tem muita música clássica, em midi. Fui o primeiro a publicar autores amazonenses da Net. Tenho colunistas. E escritores cativos. A grande poetisa portuguesa Maria Azenha às vezes me manda de Lisboa um poema acabado de escrever.
GP - Qual a avaliação que você faz da atual Literatura brasileira?
Há muita gente boa, mas a divulgação não se dá na grande media. Acho que os grandes poetas do presente só serão conhecidos daqui a muitos anos. Os grandes ficcionistas brasileiros jovens ainda não confiam na Internet. Conheço uma boa escritora que tem 5 excelentes romances para publicar. Eu disse para ela: publique na Internet. Mas o pessoal tem medo de perder a autoria. O que é um medo sem fundamento. Mesmo o livro impresso pode ser copiado. E é muito difícil encontrar um editor. E, sendo editado, é muito difícil vender o livro. É muito difícil fazer chegar o livro nas livrarias. Tudo é muito difícil na vida de um escritor. Eu escrevo há 40 anos, sei disso. Alguns tem sorte, fazem sucesso fácil. Mas o sucesso fácil pode ser enganoso. Mesmo os que fizeram muito sucesso um dia podem cair no esquecimento, depois. Eu poderia citar vários casos. Entretanto, o escritor tem de ter sucesso de alguma forma, isto é, público. Nós escrevemos para alguém. A não ser que seja um escritor que se julgue um gênio tal que escreva para o futuro. Um louco. A atual literatura tem muita gente boa. Em cada estado brasileiro você encontra uns 10 bons escritores, nem sempre eleitos pela media. Os grandes jornais só privilegiam a literatura estrangeira. Mas estão perdendo prestígio para a Internet. Os estudantes universitários só pesquisam pela Internet, não pelos jornais. Eles são os nossos grandes leitores, hoje. Você precisa ver como o Canadá promove os seus escritores. Nas livrarias eles estão na frente. Portugal os divulga no mundo. O governo espanhol mantém uma verba especial para a «nova poesia». O governo alemão compra parte da edição de todo escritor alemão, para incentivar. Há uma verba para a aposentadoria dos escritores. Nas bibliotecas, a consulta a escritores alemães é paga. Muitos governos se orgulham de seus escritores. O Brasil nada faz. Aqui o escritor não tem prestígio. Se você está em Paris e alguém pergunta: «O que você faz?», responda «Sou escritor». Será olhado com muito mais respeito.
GP - Como professor aposentado, você acha que a universidade tem cumprido o seu papel na formação dos que ali chegam e se tornam graduandos?
Algumas universidades de bom nível, talvez. Mas o bom aluno independe da Universidade. A universidade mudou muito. Está em crise.
GP - Como viajante, quais são seus planos? Fale de suas viagens.
Sim, sou um viajante nato. Gastei tudo que tinha em viagens, inclusive o fundo de garantia. Fui 2 vezes à Austrália, 3 vezes ao Nepal, várias vezes à Europa, várias vezes aos USA e ao Canadá. Foram viagens de longa permanência, sozinho. Certa vez fique 2 meses e meio no Nepal. Ou 2 meses no interior da Austrália. Creio que fui 17 vez ao exterior e viajei muito pelo sertão e pelo interior do Amazonas. Viajei de carro, trem, barco. Hoje estou mais devagar. Falta energia física. Além disso o mundo está em guerra... Lembro-me que, logo após a 11 de setembro, fui a Los Angeles: fui examinado pela polícia várias vezes no caminho. Um amigo meu estava no Oriente e de repente se viu no meio de uma guerra! Passei sobre o Iraque depois da primeira guerra do golfo e vi os campos de petróleo em chama. Estive no Aeroporto do Paquistão e me impressionou aquele país. Hoje é um pouco perigoso viajar como sempre fiz, sozinho. Além disso, há assaltos até em Paris.
GP - Quais os projetos que Rogel Samuel têm em mente por realizar?
Estou trabalhando em «A história dos amantes», que está saindo na Internet, em http://www.blocosonline.com.br/home/index.php É um texto antigo, todo re-escrito. Conta a vida de jovens na década de 60, sob a ditadura militar.
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ENTREVISTA DE R. SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO
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