segunda-feira, 4 de julho de 2011

Discurso de Posse de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras


Discurso de Posse de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras



Discurso de posse

Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas, falava-se antes: “os pastos da Vista Alegre". Santo, um "Padre Mestre", o Padre João de Santo Antônio, que recorria atarefado a região como missionário voluntário, além de trazer ao raro povo das grotas toda sorte de assistência e ajuda, esbarrou ali, para realumbrar-se e conceber o que tenha talvez sido seu único gesto desengajado, gratuito. Tomando da inspiração da paisagem a loci opportunitas, declarou-se a erguer ao Sagrado Coração de Jesus um templo naquele mistério geográfico. Fê-lo e fez-se o arraial, a que o fundador chamou "O Burgo do Coração". Só quase coração – pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espaço do mundo primeiro que tudo aberto ao supra-ordenado: influem, quando menos, uma noção mágica do universo.

Mas, por "Cordisburgo", igual, verve no sério-lúdico de instantes, me tratava, ele, chefe e o amigo meu, João Neves da Fontoura. - "Vamos ver o que diz Cordisburgo..." - com o riso arroucado, quente, dirigindo-se nem reto a mim, senão feito a escrutar sua presente sempre cidade natal, "no coração do Rio Grande do Sul". Provinciano - no justo traço psicológico e moral, que não no social e político - buscasse, aqueles momentos, uma reinsuflação de lá, entre o aconselhamento. Dessa Cachoeira, que o formou, que ele constante amou, a que como Prefeito prestou devotado e afincado anos de vida, refazendo-a, e pronunciando-se ainda filho devedor, dela orgulhoso; como, pensando "rio-grandensemente", diz ser o Rio Grande "orgulhosamente província". Ribeiro Couto, saudoso mais hoje conosco, e que a ponto co-adotara o hipocorístico, de Belgrado vem vez me telegrafava: "Pouso Alto se embandeira e toca os sinos em honra de Cordisburgo". João Neves, porém, nosso Embaixador e Chanceler - requerendo o interior e a província, onde firma residir ainda "a força do Brasil, especialmente nos maiores Estados", reclamando seu trato como necessário para quem aspire a exercer qualquer notória influência, imputando às metrópoles levarem "ao diletantismo, à superficialidade, ao epicurismo", e professando nada conhecer "que melhor exprima a vontade do povo em geral do que o povo municipal", - entendíamos juntos, do modo, o País entrançado e uno, nosso primordial encontro seriam resvés íntimos efeitos regionais. Para Paris, escreveu-me: "Vi uma fotografia da entrega de credenciais do Carlinhos. Nela você aparece no fundo ostentando uma gravata de listas vivas, que tanto pode ser fabricação do Sulka, como comprada no armarinho da Main Street de Cordisburgo”. Via-me lento e desacostumado mineiro capiau, indeformado, ou o-quê, segundo seu avaliar, xará e caçula companheiro no sentir de homem lá-de-fora ou lá-de-dentro; isso nos concertava. Às quandas, equivocava-se e dava-me “Barbacena" - a sagaz e espiritual, onde, em tempos diversos, ambos residíramos gratamente, e tão-então não menos um nosso "lugar geométrico". Por mim, freqüente respondia-lhe topando topônimos. - "Cachoeira concorda?" - se bem que, no comum, o chamasse de "Ministro". Escuto-o: - "E agora? Que há com Cordisburgo?"

- Muito, Ministro. Muita coisa...

De fim a fundo. Digo, conto o que de João Neves da Fontoura, por afortunada aproximação, me foi dado colher - o transordinário na experiência humana ordinária, idéia e impressão, singelo testemunho simples, do ato ao fato – na memória mais sentida. Para tanto, terei de à-pauta citar-me. Embora. No que refiro, sub-refiro-me. Não para a seus ombros aprontar minha biografia, isto é, retocar minha caricatura. Não eu, mas mim. Inábil redutor, secundarum partium, comparsa, mera pessoa de alusão, e há de haver que necessária. O espelho não porfia brilhar nem ser; mas, por de-fim, para usação, bem tem de relustrar-se. Direi.

Dele devo, por exemplo, datar o que recebi, com mãos menores. Da valia intelectual e dos rastros de cumprida vida pública - sua vasta capacidade inquieta, sua folha de batalhas, seus breves postos em poder e frementes empenhos de antagonista, seu inteiro atuar na política brasileira, tantas horas decisivo, tensa sua figura histórica - discorrem e esclarecerão, a olhos gerais, os anais, arquivos, livros, esplêndida informação autobiográfica. Esse o metal já amoedado - não permitido a alguma espécie de desaparecimento e esquecimento. Duvidemos, isto, dos que o não souberam compreender; a traça não pode com a alfazema. Tenho, sim, muito pouco, um tantésimo, um quantésimo. O que devo portar por fé.

Nem o que queria atinjo. Como redemonstrar a grandeza individual de um homem, mérito longuíssimo, sua humanidade profunda: passar do João Neves relativo ao João Neves absoluto? Sua perene lembrança - me reobriga. O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências. Por essa mesma proximidade, tanto e muito me escapa; fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente.

Vai para 40 anos; e era momento de juventude. Súbito, o povo guardava brado e gesto, um começo de começo. Foi a 5 de agosto de 1929. Aparecia para o Brasil, deste tamanho, um nome - o do destravador, servo dá palavra e de prender fogo. (João - que nem os Crisólogos, Crisóstomos, donde ouro qual tal: Fons Aurea, Fonte áuria, Fontoura; alvo - Neves - em nitidez. Davam os jornais, eco centelhar de fragmentos, sua fala na Câmara, de três horas, discurso-suma de toda uma esquipada: "... Vamos para o prélio aceso das urnas, e quiçá para o prélio sangrento das armas." Vocava "uma crença nas forças imortais do espírito de renovação." Reportava-nos os da altiva marca meridional, de rajadas, rasgos, verticalidade e ímpeto, robusta evolução cívica: ... "os rio-grandenses, que traçaram as fronteiras da Pátria a ponta de lança e pata de cavalo..." - o gaúcho de brio e cerne ao ar livre. Trazia a Paraíba, valente em entono em sonância, "até às montanhas de Minas Gerais. Minas pacífica, Minas vitoriosa!" Tomamo-lo a tento. Ele ardia. Ia, no entreassomo, mas no eito do arremesso:

"Sonhava nesta geração bastarda
Glórias. . . e liberdade!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O gênio das pelejas parecia..."
- o de ÁLVARES DE AZEVEDO, no "Pedro Ivo". Mas, de quem, então:

"A fronte envolta em folha de loureiro
Não a escondamos, não!"

Na convibração, no momento, comportávamos, nós outros, seja ou não, sobeja exaltação e fantasia. Seduzia-nos assim entanto, imantados, o pregador, o Orador por antonomásia - que acudira das assembléias de sua terra, politizada e parlamentária, sobressaído em quanto âmbito de acústicas e toda sorte de embates, medalhado já de fulgor e forma, desde as pugnas de estudante senhor da tribuna. Vinha-se mais de ouvi-lo, frente às artes-mágicas do fatual e retendo-o daí como haraldo de um futuro em faces limpas. Seu discurso - seus discursos "liberais" - rota de obrigação - trem e incessar de lumes. Neles podia-se experimentar não apenas a comensura de facúndia e talento: mas coragem, de cor, ânimo, de alma. Tive-o, imediato, antes que outro incorporando em si o movimento que arrancava. Todo o mais adiante foi confirmação. Graças por este sóbrio meu não desacerto.

Seguiu-se, meses altibaixos, o comando do líder, causa avançadora daquelas jornadas, que tangeram o remate da Primeira República. Reconhece-se e unânime refere-se que João Neves da Fontoura - promotor da inteligência com Minas e, a todo e próprio risco e quase rituar mística significação, com Minas firmador do pacto da Aliança - susteve e alentou, inarredado, infatigável, insobrossoso, o rojão da campanha até à revolução e o triunfo. Dele foi a representação em relevo. Dele se retraiu - modo algum por machuque em melindre, frustração ressentida ou rancor de ambição, sei-quê; senão por drástico realismo conforme desconfiado desencanto, - sempre operário todavia tentando servir a uma então impossível congraça ou enquistando-se na vigilância mais lúcida. Dele não desmentiu ao conspirar a pronta reconstitucionalização de um Brasil renovado na ordem democrática - e a sustentar, verbo, o glório São Paulo de 1932, para onde arriscara-se a abrir o arco, num mixe aviãozinho de aluguel, em expediente dramático qual leal declaração de firmeza e vivo audaz como labareda metáfora. Nem o denegriu, já depois no exílio, publicando-se desabusado acusador; menos ainda, mais tarde, ao repor-se com o Governo, porquanto flui, outro-e-outro, o rio humano, certo se no álveo do árduo de propósitos, e: quem pensa no Brasil, e no povo do Brasil, vezes quantas rebeija pedras e santos. Notável esse mirável João Neves. Voltava, em 35, remanente líder, à Câmara, da Minoria, de novo facho e voz.

Esta era uma vontade, frágil alta força.

"Orador, foi dos maiores senão o maior, do nosso tempo" - consigna Afonso Arinos de MeIo Franco. Depõe: "João Neves da Fontoura... oriundo dos mais ilustres troncos sulinos... o fulgurante paladino de 1930... o mosqueteiro gaúcho... contou com um incomparável instrumento: a sua verdadeira e magnífica eloqüência. João Neves chegara dos pagos com fama de temível orador. A brilhante campanha oratória de João Neves por esse tempo, que transformou, afinal, a oposição em revolução, não encontra talvez nada superior, e pouco haverá de comparável, em toda a história parlamentar do Brasil. Quantas vezes o vi e outras tantas o admirei."

Por mim escutei-o sempre com alegria alertada. Ver era vê-lo partir a falar, sem manhas de virtuose que soberbas de ás, vezos nem rompante: cumprindo apenas correto informar o recado, propor sua pleita, dar conta. Ele, que meditava e redigia os discursos, drede botava-os sob contido arranjo, alinhando tópicos reflexivos, conceitual o pensamento, lisa correntia a linguagem, lhano o teor cogente. Lidos, pegavam logo disciplinada periodicidade e velocidade uniforme: nanja boleações, arrastos, retóricas ou vocais surpresas; por-pouco nenhum ornato. Sérias serenas as feições, também ele não se prometia em porte e aspecto; retreito de gestos, não mimava a jogo. A voz, antes desbrilhada, só insistência e volume, forjando-se hirta ou adensada se entornando, dados foscos subtons, tocava as frases num andamento ascendente quase invariado, seqüência de pontuais cortes e simétricas modulações, homofônicas.

Então. E, em instante, brusco ou gradual, baixavam-lhe outras veras, estalo, faculdade, fôlego, expediam-se-Ihe por volta anjos novos da guarda, caboclos, gênio, verbigênio, apolínica chispa, o "duende", o "daimon"? Erguia-se e erguia-nos, por comoção e impacto, raptura. Erecto - mínimo vulto, mais mente e menos matéria - maludo e esmarte agora, ao ápice e às ordens, no tinir do metal, centro de círculos até que em fecho enfim o circuito único encantatório, por efluxo também invariável -: daquela presença e intensidade anímica. Induzia, convencia; impressionava, quando não, encostando em respeito adversários, e nos sem-jeito os emparedadamente insensíveis. Isto: isto é, sabeis, o orador, o fluido e o halo. O que responde igual, mas circumpatia e nimbo espúrios, a outras dicções, que não menos sojigam e enfeitiçam - a pítica, a hipnótica, pseuda e só-Iabiosa, a elemental ou animal, mesmo a vesânica. Não a dele. Sua palavra era lavada forra do ideal sobre o contingente.

Assim aqui, assim lá, nas alienas e internacionais reuniões. Ao abrir, inesquecivelmente, a IX Interamericana, de Bogotá, por lembrar. Ou, na Conferência da Paz, em Paris, quando acorçoados o espiávamos assumir a tribuna, do mundo, convocado pelos "grandes", Bevin, Bidault, Molotov, que alternados ali presidiam: - "I call upon the Representative of Brazil, Mr. da Fontoura..." - "Je donne Ia parole au Premier Délégué du Brésil, Monsieur Da Fontoura..." - "Imiéiet slóvo Pêrvyi Brazílhskii Delegat Gospodin da Fontoura..." Ah, Ministro! Como cabe tanta coisa nos meus olhos?

Dessa oratória e eloqüência - quais o mérito e crédito, o mando, o móbil? De onde fura a fonte? Diga-se: valor. O altamente impessoal, quer dizer, o personalissimamente profundo. Da cauta, recolhida verdade do sentimento - era o que se externava - veemência ética, a sinceridade mais descoberta e em fé. Tão a fio mormente seu raciocínio, tanto mais a emoção legal certeira. Tenência. Integro, falava com uma autoridade; a de quem sabe ser vedor puro e por vezes pasmo da própria e movida grandeza. Retitude permeio e a fim, enraiz de convicção, sem regateio ou preço. Devoção à diáfana carne moral dos princípios. Mas à base então - a angústia pelo bem comum, a paixão da Pátria. Esse, dado a ver, o segredo do orador João Neves da Fontoura. Alma exercida, disse. E coração. Coração, é indispensável; todos sentimos por quê. O dever, mesmo, vem dele. Entanto que dever e pudor compelem-no a pelejar oculto.

Volto. Vai para 30 anos. Vim aqui, por causa de um prêmio, tinha de fazer discurso, cheguei tímido e cedo. Dei no saguão com grupo de acadêmicos. Deles, um, talvez não o mais próximo, endireitou para mim. ("Um acaso? Uma coincidência?" - ele é quem indaga, noutra ocasião e por diferente passo, em de seus livros: "Melhor é acreditar que uma harmonia secreta domina..." - conclui.) Encontrávamo-nos, primeira vez. Dispôs: - "Vai o poeta tomar chá conosco." Subimos, me apresentou aos pares, de mim curou todo o tempo. (Lembro-me: Adelmar Tavares, afável, glosava-me o "... nome certo para poeta..." -; guardei, tudo quanto há com nomes me apanha.) Em 29 de junho de 1937. E, a 12, ele, João Neves, tivera posse, apresentando sobre Coelho Neto estudo crítico abarcador, com achados, perdurável por substância e senso. "Assim, terçando motivo rigorosamente literário, vós - o expoente, - provais quanto merecem e têm direito, as individualidades da vossa esmerada categoria, ao convívio acadêmico, selecionador e acertado" - saúda-o Fernando Magalhães. (Expoente - e máximo - de um gênero; contudo como aspado "expoente" inajeitadamente quem-sabe se balanceasse, usando por vezes intitular modo curto a entidade: "Academia Brasileira"; e entretanto, já pois ainda antes das "MEMÓRIAS", pondo rancho arriba nas Letras do país.) E estava, eu disse, em sua doce lua com a Academia? (Mas, se sempre esteve, melenluarado e dos mais, tais querer e apreço prestava à Casa...) Me lembro - tributava jovial reverência ao mestre Antônio Austregésilo, outrora seu médico. Relembro, mais, Ataulfo, Roquette, Múcio, Alceu...? E eu enxergava o tido herói - aquém Ì nas aparências: corriqueiro, trêfego prazenteiro, leve, leviano que qual? Mais lembro! Tudo o que era, a olhos cheios, uma coisa - caseira, desusada, despercebida: bondade. O que ele endereçou, a uns e outros, natural e ágil, toda a vida. Não adamantino: barro. Mas do melhor humano. Sua real simpatia humana, ativa, principal. Ele era bom. Será que faz ainda sentido a palavra?

Semanas mais, deu-se-nos nova minúcia - senha ou casualidade?

(E ajuntemos delas, que é como a vida se faz.) Tudo o que, aliás, tutaméias peripécias, se passava nas ocasiões tão avulso, cabível sem antecedência nem conseqüência, que pôde me parecer até enganoso, fora de esquema, lapsos de improbabilidade; só no futuro iriam assentar nexo. Foi, foi que eu vinha distraído pela Avenida e sem rumor esbarrou à beira de mim um carro, alguém cordial falando-me: - "Aonde vai o poeta?" Era, claro, João Neves. Me fizeram subir - ele estava com Olegário Mariano e, por estúrdio que se tenha, jamais me acontecera convocação do jeito! - levaram-me a casa. No caminho... bem: - Você um dia será também acadêmico" - sisudo emitiu. - “Mas, mais tarde..." - retomou-se. Mesmo muito mais tarde (disto não sei se riu, do analógico) comentei: - "Na terceira vez, o sr. me içou foi a chefe de seu Gabinete..." E é episódio a contar; tanto dele revela.

Vem de mais de 20 anos. João Neves, até lá, percorrera muito, incluso nos espaços diplomáticos: membro da Delegação do Brasil à II Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, em Havana; Embaixador em Missão Especial a Cuba e ao Panamá; e Embaixador do Brasil em Portugal. Eu, de mim eu andara por Alemanha e Colômbia, e agora, na Secretaria de Estado, tomava conta do Serviço de Documentação, valha dito, em taipa no meu hipogeu. Soube, vago, que João Neves da Fontoura ia ser o Ministro das Relações Exteriores. E - vede que homem. Vai, vai, um dia, o, saudosíssimo, Embaixador OrIando Leite Ribeiro, Chefe do Departamento de Administração, Chefe meu, me mostrou (- "Sabe de quem é esta letra?") tira de papel com o meu nome. Era uma escolha, acontecia meio algébrica, despessoal, certo modo abstrata. Escutai-me.

Em dadivada página das "Memórias", das que me honram maior e comove-me, põe ele o fato - de outra margem. E: "Rosa é um dos meus mais novos amigos. (...) Quando tive de escolher o chefe do meu gabinete, no Governo Dutra, inclinei-me por ele, por força da chamada 'dupla vista'. (...) Dou muita importância às pequenas coisas; mais do que às grandes." Já em artigo, num semanário, ele publicara: "Para a chefia do gabinete convidei o então 1º Secretário João Guimarães Rosa. Não o conhecia bem, mas, num lampejo ocasional, ele me apareceu como a pessoa de que precisava junto de mim."

Então explico. Nada quase corre simples, nesses casos, depois tremeiam-se lembranças e contralembranças; e há que, se o destino quer e faz, aplica luxo de lances, ataca por linhas simultâneas - disto sei recheados exemplos. O que ele grava nas "Memórias", certo a certo, deu-se. Mas houve mais, confluência, e eis aqui João Neves reavulta. Se bem que conhecedor de funcionários à altura no Itamaraty, ele, jogando seguro, pediu a Leite Ribeiro indicações (e, com um e outro, confirmei comprovada essa conversa.) Encomendava: "alguém que, chefe de gabinete, não se ensaiasse 'eminência parda' ou 'ministrinho' arrogando-se a ministrança..." Leite Ribeiro apontou diversos. "Mas: '... e que entrasse para a chefia com atitude de espírito igual à de quem sai..." Vindo ora a mim a vez, atentai para o que João Neves por cima perguntou. - "É de que Estado?" - "Minas." - "Fico com ele!" Assim considerava a minha mátria pátria, à qual devesse também pelo sangue, por sua avó materna. A ela se reconhece unido e grato: "Visitando muitas vezes Minas, aí por volta de 1929 e 1930, e falando ao povo em comícios apaixonados, nunca deixei de meditar sobre os insondáveis juízos da Providência: eu tinha ido dez anos antes àquela bendita terra buscar um pouco de saúde. . ." Prezava não tão-só "a doçura daqueles ares de montanha"; mas própria a gente: - "Vocês, mineiros, são diferentes de todo-o-mundo..." – repetia; apreciava mesmo "as tragédias mudas da política mineira." Assaz confalasse o mote de COELHO NETO: "A terra venerável de Minas, terra de abundância e de hospitalidade, fértil e amável como o doce e generoso país quenanita... " E, pois, dela nunca poderia ser dito duvidador ou menos amigo.

Desoferecido foi que fiquei, peado quase. A um mestre achei de pedir conselho, ao Embaixador Leão Velloso, o Ministro que deixava a pasta. - "Que fazer para ser um chefe de gabinete?" Ele, coloidalmente bondoso e dono de curtida sabedoria, não à-toa vivera anos na China. Ainda assim primeiro se pasmou, um átimo. Acudiu-me, porém com fino sorriso adequado: - "Sempre trate de não chegar depois dos outros. E de mais não precisa, quem é capaz de fazer essa pergunta..." Nem tanto. Desde cedo, apenas, também eu aprendera que "o sábio fia-se menos da solércia e ciência humanas que das operações do Tao". Muito junto do braseiro, gente há às vezes que não se aquece direito, mas corre risco de sapecar a roupa. Eu gosto do amarelo. Talvez enfim nunca pudesse ter sido chefe de gabinete, de ninguém; salvante mesmo só de um João Neves da Fontoura.

Não que para preposto caçasse ele homem de capim, anódino, esmorecido; estimava ao invés a franca contestação e resistência. Disso intuí nota, ligeiro. Contava eu aprender primeiro suas querências e movimentos: assunta-se o leopardo é de dentro da jaula. Mal me deu tempo. Mandara a despacho um decreto, sem que eu o visse; o que, em si, importava nada. Apenas, esse ato - e era, menina-dos-olhos, o que criou o "Curso de Preparação à Carreira de Diplomata", uma das conquistas institucionais da administração Dutra e da gestão Neves da Fontoura - suprimia, de golpe, os concursos diretos, deixando penivelmente por baixo os candidatos do interior, dos Estados. Vim estouvado opor-me; riscou-se o quadro a corisco, feito raspar de garrotes em escaramuça. Desfechou-me: - "Alguém de Barbacena ou Cordisburgo?" - "Ou de Cachoeira, por exemplo..." - tive de repontar. - "Isso nunca acontece!" - ele revirou. "Aconteceu comigo..." - pus ponto. Digo, pontuou ele, sussurrado só, numa de suas reações rapidíssimas: - "Talvez não seja mesmo democrático..." Solilóquio peremptório. O Ministro pediu de volta o decreto, para modificação; manteve o concurso de provas, excepcional e paralelo ao Curso, inventou bolsas de recurso aos estudantes desprovidos.

Sei, nesse entestar ficamos de verdade ligados. Descobrindo também que ele era, por constância e excelência, o democrata. Creio não ter encontrado outro assim inerentemente autêntico. Ideal, espírito, sentir democrático, possuíam-no - como respirada quantidade, fundamento e arraigo, sua característica. Por aí sofria, pensava, acertava ou se enganava, persistia. Escarafunchai-lhe a vida, e verificareis. Ralavam-no a engulho quaisquer conotações de regimes superados. Chegou a mandar proceder a original escrutínio no Itamaraty, a respeito de mudança de horário. Seu conviver demonstrava, porejante, a ingente crença. A mim, a quem o conceito da soberania do povo suscitava ainda visos meu tanto teóricos, ensinou-me que ela tem outrossim carne e canseiras, tarimba e pão, consolação; mas, principalmente, certeza criadora.

E esse - revolucionário, o removedor, exemplar de cultura e humanidade, dado ao esforço progressivo e aberto a quanto de construtivo, visando permanentemente ao bem da comunidade, admitindo a coexistência honesta das ideologias - desatentou na temática da transformação social, dela se desavisou ou dessentiu-a, a grau de merecer tacha e pecha, não andou com o tempo?" "A idade que vivemos é a da cooperação niveladora" - proferiu. Repetia-me citação: "Vivemos no seio de uma grande injustiça..." Detestava toda sorte de usurpação, não toleraria o mínimo retrocesso, o rejeito de nenhuma das duras e graduais aquisições nesse plano, no qual somente não colocava a urgência como um optativo categórico. Temesse, há de ser, qualquer sôfrega dissolução do genuíno no aleatório, receava o destabocamento, caos, a má ordem. De feita, apostrofou-me: - "Você pensa que a gente vive no Céu?!" Desde menino destinado, e desde a adolescência entrado à lida partidária, e por uma carreira de seis decênios na estacada, prisioneiro de cívicos intuitos - confez-se aos despóticos valores políticos da ação em superfície, sem pausa para esfriar-se do tumulto e da força adquirida - incicatrizado investindo sempre o imediato - e portador de um alarme.

João Neves vinha à direção dos negócios sabendo o aranzel do ofício. Dominara encargos e responsabilidades de sua missão e enorme experiência diplomática, de 1943 a 1945, em Lisboa, neutra, posto crucial pelo entrejogo de meias manobras, pressões, urgidas decisões ponderosas. Comandante, agora, e por duas vezes, desestreitado e no cIuso, deu-se à faina de nossas relações internacionais: de maneira forra, lúcida, objetiva, sutil, decente e oportuna. Sei que, a pensar e realizar, ele se adiantava em toda iniciativa e dignificava qualquer rotina. Documentado está o que pôde, conservado nos rascunhos e registros. Apenas, o meu Itamaraty, mansão de equilíbrio e mourejo, fiel e febril, muito mais do que fora se crê, e também uma Casa hierárquica, timbra seus assuntos - não por cavilosidade, culpas, má-fé, senão rigor de precaução essencial, moderação co-harmonizadora e universal regra específica de estilo - pelo selo de "secretos", "confidenciais" ou "reservados". Do que ele fez, sem subservir ou omitir-se, sem falsimilhanças, me penetro. Disto não darei parte; nem serei quem deixe de deixá-lo sub rosa. Mas aqui inscrevo, como premissa honrada e sustentada, a que, a 1o de fevereiro de 1951, em discurso de posse, foi seu juramento: "Convém tornar explícito que, na condução da política externa, o Governo - acima de tudo - velará para que aos interesses fundamentais do Brasil não se sobreponham, em quaisquer circunstâncias, interesses alheios."

Reevoco-o: vejo que trabalha, trabalha, à mão-cheia entusiasmada, no retângulo-arena de seu gabinete. Solto lépido, serviçal que nem jovem secretário-de-embaixada, e a todo tempo impartível da exata dignidade, e da amenidade de irmão da gente, ingênita gentileza. Fazia conta do bem-estar e das necessidades ainda que de servidores infimífimos. Manipulador agudo do concreto, descia, prático, a sugerir meios e aconselhar-nos na execução das tarefas; e eu me envergonhava da minha entorpecedora e distanciadora precisão do absoluto, nas ocasiões em que, enrolado ele mesmo a debater tropel de assuntos, em reuniões, tomava instante para passar-me expeditivos bilhetes de auxílio, - solícito espontâneo, valedor constante, servidor de seus servidores. Difícil de quadrar-se a tolhedores métodos, aparentemente um absorvedor individualista, lia tudo, tudo capturava e examinava, produzia e orientava, sem cessar, ditava com proba avidez. Arremetia grandes olhos a qualquer problema, não enjeitando a farinha por grossa nem o angu por duro, jamais avaro de si. Nunca o vi bocejar; se estremunhava era como despertado gato. Seguro de modos trastando exercitado autodomínio, inimigo de ênfases, dramaticidade ou imponência, nem com ensombrar meio rosto se traía, ou só em quebrado de segundo, no semicerrar o cenho; quando indicado, ensurdecia-se um pouquinho mais, polidamente. Temi, vez, que, devido a raso descoincidir de índoles e vistas, estivesse-o menos socorrendo que estorvando, e o interpelei: - "Ministro, como é que o sr. me suporta?" (Nessa manhã, de seguida, espalhara eu alguns de seus projetos, tendo-me como isolador ou mau condutor contra as descargas de bateria poderosa.) Retrucou-me: - "Porque nós nos completamos... Você é a minha consciência mineira..." Por certo assim ministrava-me sua natural generosidade, propinado automático agrado de político; vede, porém, que na tirada predominava pico do sense of humour, absolutamente indispensável e uma de suas riquezas. Senhor na indubiedade, sem intricantes vacilações, destorcido era que puxava pelos mais complexos fatos; nem se furtando de abrir janela ao vento. Discorria-os a fino e gume ardor inteligente, seja sobre a tábua da justa medida e bom senso. Sabia esperar, conquanto suponho achasse que esperar é dar-se em hipoteca. Nada desandava, entretanto, nem desconchavando mesmo a quem não afeito a esse ritmo e velocidade de espírito. Inteligência que ao auge resplêndida se exercia, quando no aperreio do arrocho e já a horas de estalar, sem beirada o prazo. Dele então se inesperava: faísca, a inédita idéia, terminante, ou a útil definição, saltada acima, brasa. Ainda mais se em contenda. Parece mesmo que, para com toda a eficácia fixar-se a escogitar coisa do correr comum, primeiro carecesse ele de atribuir-lhe sentido adverso hostil, para acometida e de vencida.

"Mas meu signo era claramente o da luta" - vem descobre. Decerto. Seu era o signo do Escorpião, sob cujo influxo hoje transpiramos, campo-de-força de Marte. Scorpio reparte a seus filhos, com senso extra dos deveres e força de vontade tremenda, a pugnacidade decidida, intrepidez, gosto da rusga e da guerra. Fazem aos punhados inimigos. São políticos perigosos. O sujeito do Escorpião desfaz no risco, não alui por temor nenhum, defende-se atacando, nutre-se do conflito, dele extrai renovada substância ao contrário de despender energia nervosa, resiste até à morte. João Neves, a gente encontrava-o amofinado, perrengue, pessimista, e já se sabe: embaraçava-o a apatia dos entreatos pacíficos, atolava-se na tranqüilidade. Ele não via o sol nos belos brejos, horizontais. Depois, a gente voltava, e eis ora o homem sem achaquilhos e o acessório, são, alegre esportivamente, suas forças todas enfeixadas. Pois então, é que de novo em patriótica briga - era o realizar-se e renitir - o entrevero! Disso deixa conhecimento: "a poesia da peleja", "o sabor agradável dos embates". Define-se? "Por uma longa experiência, estou convencido de que a consciência do perigo e a certeza de vencê-lo influem uma grande paz nos espíritos atribulados." Daí mais sua filosofia, ou, melhor, Weltanschauung, resoluta cosmovisão, que era já a de Jó, de Uz. Diz: "Toda segurança é aparente, todo bem-estar terrivelmente interino." "A escolha e a luta são nossas inseparáveis companheiras." Portanto; "andava sempre, como se diz, com sete sentidos". "A vida é uma perpétua emboscada." Só que com ainda escorpiônica sensatez, mas nada de supérfluas cautelas; e humano não é sinônimo de paradoxal? Refrega durante e em avante, sim, desembuçado respeito pelo contendor. Nem o estúrdio potencial de ódio do Escorpião podia com sua não menos inata magnanimidade.

Então - e ele e Vargas? E ante Aranha? A dúvida pertine e o ponto pertence, cortando aqui desconversa, porquanto dentre bando e numeroso escol - os brasileiros grandes do Rio Grande - plano adiante inscritos na mesma moldura: tríade que em conjunto giro insólito a História nos trouxe. Impende a pergunta. Resposta, Deus sabe, só sou contador. Vínhamos, por exemplo, de visitar Oswaldo Aranha - feérico de talento, brilho, genialidade, uai, e daquele total conseguido esculpir-se em ser - e Neves pauteou: "Você estava extasiado, empolgado..." Mas vi e já advertira em que não menos cedia ele à cordial fascinação. - "Sagarana (sic sempre), cuida disto para o João..." - telefonava-me Aranha alguma vez. Prezavam-se e queriam-se, alta, gauchamente; a despeito de quaisquer despiques, queixas, rixas, unia-os a verdade da amizade. Getúlio Vargas, muito falávamos a seu respeito, compondo uma nossa tese de controvérsia. Meu interesse, sincero, pela imensa e imedida individualidade de Vargas, motivava-se também no querer achar, em sã hipótese, se era por dom congênito, ou de maneira adquirida mediante estudo e adestramento, que ele praticava o wu wei - "não-interferência", a norma da fecunda inação e repassado não-esforço de intuição - passivo agente a servir-se das excessivas forças em torno e delas recebendo tudo pois "por acréscimo". - "Enigma nenhum, apenas um fatalista de sorte..." - encurtava João Neves, experimentando fácil dissuadir-me. Mas, apto ele mesmo ao mistério, sensível às cósmicas correntes, à anima mundi antiga, teria de hesitar, de vez em quase, também a memória cobradora beliscando-o. - "De fato, o Getúlio dá estranhezas, nunca ofegou ou tiritou, nem se lastimava de frio ou calor, que nós outros todos padecíamos, nada parecia mortificá-lo..." - concedia-me, assim, pequenas observações. Logo, porém, sacudia-se daquilo. Fazia pouco de minha admiração-esimpatia por Vargas, sem com ela se agastar. Diferença fundamental de temperamentos em contraste - o ousado opugnador sem coleios e o elaborador expectante do contempo - de incerto modo inconciliava-os: por um lado insofrido espenejar-se contra visco, de outra banda quieto apartar-se de picadas. Voltas e contravoltas de longo acontecer, as vãs vicissitudes, fizeram o resto. Ou injunções de foro íntimo, públicas concepções diversas. Aproximações, afastamentos, reaproximações, como termos periódicos, patenteiam nada de outro que uma forma do "kaempfende Liebe", de afeto combatente. Demais, não se pisaram nem cuspiram nos ponchos, haveriam de entender-se, dia ou dia, em fim; já não pelo hábito caroável e em tradição cavalheiresca, mas por vinculação predeterminada e obedecida, acima de dessemelhanças ou revergências no obscuro e ambíguo das causas transitórias. Lembremo-nos sempre do que ainda não houve. Retirou-lhes a tragédia a extensão dessa substância amorfa e escolhedora - o tempo. Esta horária vida não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos. Entanto que, como viável esteira do próprio tempo, só nos resta, a nós, cegos rastreadores, o desconjuntado flou de uma má montagem. Recordo: "As coisas estão amarradinhas é em Deus" - entimema único que punha em acordo minhas Vovó Chiquinha, de Traíras, no Rio das Velhas, e Vovó Graciana, de um povoado do Paredão do Urucuia.

Mesmo em meio de política.

Salteai-o nos tomos de crônica comentada - "Borges de Medeiros e seu Tempo" e "A Aliança Liberal e a Revolução de 1930" - em que João Neves da Fontoura nos estende texto digno de estadista sarado, de marca. Asseado depoimento, razoado a rigor de cunho positivo, nas formas da lógica; entrediz-nos entanto, quando por zelo explanador ou afã de interpretação, o titubear do autor, testemunha ou personagem, frente ao desconforme improviso dos casos e rente ao ultrapropósito de acontecimentos. Tal quer-se transparente para objetividade e acurácia - e a transparência pressupõe fundo luminoso - tão logo tem de citar os "altos juízos", os "desígnios" da Providência, seu "império", o "papel" que ela lhe distribui. Alega antecipações, não pode "desviar o pensamento de certas forças imponderáveis", reitera menção de outroversas coincidências numerológicas. Duvida enfim do plano empírico: "Sonhos ou realidade? Será que a gente vê mesmo, com exatidão, as pessoas e as coisas?" Nem estamos em Alexandria ou Ásia, mas soletrando verídico relato de um americano latino, de idéias ordenadas.

Supersticioso, sim; é claro. Superstição não preconceito, o ilusório; antes quase poesia. Percepção e arejo, defensivo psíquico automatismo, uma respiração cutânea do espírito, talvez. Soubesse que poesia é remédio contra sufocação. (Acompanhei-o, primeira sexta-feira, aos franciscanos, achávamos benigno gesto sob apaziguadoras signas de ensalmo. Não empreendia longa viagem, sem à última folga visitar igreja, mas assim mobilizava-se era para o que der e vier do agir. De outra levada, voltávamos de Petrópolis, rodamos ao outeiro de São Bento, aplicaram-nos os monges a bênção de São Brás, 3 de fevereiro, acesas as velas cruzadas, era como em remoto em meu Cordisburgo sobre o Ribeirão-da-Onça, a gente reentrava a intacta confiança e infância.) Sabe-se disto - que justo os rijos fazedores, de maneira calada ou confessada têm de ser no particular susceptíveis ao mais, captem os cantos de todos os galos. Tudo, pela metade, é verdade. Os extremos já de si sempre se tocam, antes que tese e antítese se proponham.

Mas, esse tom intuicional, aquela atmosfera passada de eflúvios, compertencem ao que se espera de currículo descrito por homem público? Talvez não; tanto nuamente são mesmo é da vida.

Salvo dissermos ainda do individido discernis entre obrigação e vocação, tendência e necessidade. João Neves foi político por encaminhamento, determinismo ambiente, renovados ditames; não por vício. Melhor, por recorrente ecologia pessoal como inevitável campo de ação, a metade estática do fadário - seu dharma. Estou-lhe no eco: afirma que em política sempre caminhou e subiu dando as costas aos mais entretidos desejos, até mesmo aos propósitos mais fincados. Dela diz ter sido, "talvez hereditariamente", sua "fatalidade". Vê, nela litigando, a imposta relatividade que a macula - bem em intenção, mal necessário. Aí dá-se outra medida de sua nobreza e rareza. De fato.

Surpreendi-o, amiúde, no vivo. Uma vez, por exemplo, descansávamos, especulando disso e daquilo, chegou-se a confronto entre o político e o artista. Precipitei-me a grado de argumentos e exercício. Neves, repartido absorto, externou-se então em frases muito planas, não dissertava, recordava. Falou das obras que pudera promover na Cachoeira, de tanto que no Brasil precisava de urgente ser feito, imaginava humildes enormes realizações. De ato, entendi. O que ele pretendia e perseguia era a política substantiva, seu discreto cívico exercício e trabalhosa consecução, sacrifícios pelo cabedal coletivo, a concreta causa do povo: culto aprendido, desde quando contemplava famoso manifesto de Júlio de Castilhos, impresso em cetim branco, num quadro no escritório do Pai - que ele acompanhava, a cavalo, em suas idas de Chefe local do município. Colocava-a alta, mas na escala dos deveres, sem refugar nem reter seus aspectos subalternos.

Provável porém daí também decorram as constantes negativas que o embaraçaram na falácia das situações vitoriosas: um sobrevir de empecilhos "between the cup and the lips", entre a colher e a boca perdendo-se a sopa, e o obstinado opor-se da perfídia imanente às coisas, "die Tuecke des Objekts". Cabia-lhe, nas campanhas, "receber os primeiros e os últimos golpes", entanto que, "na hora das honrarias e dos postos", sofrer as "injustiças e preterições" - diz.

Tenho que o onerasse o handicap de excessiva sensibilidade, com a mobilidade, mercurial, conseqüente; mais alguma incontida impaciência de idealista. Faltavam-lhe, além da gana irracional que em vontade-de-poder se revela, blindagens grossas, densidade epidérmica, o quanto de macicez para o desempenho do calibanato. Da sensibilidade e inteligência tem-se sempre de pagar ingrato preço.

Por contra, que formidável campeador, quando na oposição, aquelas mesmas aparentes limitações o faziam, com destaque dado e conquistado! O que se pensava dispersivo, plástico e fragmentário, resolvia-se em flexibilidade presta, multiplicados meios e órgãos de movimento e ataque. A fartura de antenas sensitivas provia-o de incomparável tino, quase adivinhador. Funcionavam-lhe engenhadas as imaginosas aspirações, vezesmente, sem relaxe; tanto quanto jogando-o ao arranque de superação a própria experiência de reveses. Tremendo, ei-lo, contendor duro, conspirador sério, conferindo força de persuasão e evidência convincente, inchante fermento; pequeno polegar, malasarte, malino não maligno nem maquiavelhaco, mutuca - como Sócrates de si mesmo na "Apologia" diz-se "a mutuca de Atenas" - ou melhor na pressa não reta das abelhas em vôo, à mão-de-deus-padre de táticas inseguras e certeiros desatinos, fogo em todas as frentes, não lhe importando perda de chumbo ou pólvora. Espetáculo! Franzino a performar seus trabalhos-de-hércules. E, aqui, estamos no vértice do incontestável. Contai-os.

Revede, a etapas, o que dele guarda lasca e garra, e dívida à eficácia de sua impulsão sustentada exata, à ponta extrema. Recitem-se, 29/30, Aliança e Revolução; 32 a Epopéia da gente Paulista, que remeteu inadiável em prumo o Brasil; a vitória, 1945, da candidatura Dutra, por ele alevantada (e recusara filar em mãos a sua, própria, com manilha e trunfo, posta por Vargas); a campanha mesma pró-Vargas, 1950. Mas meramente marcos de geodésica, ou, devo, digo, rebojos que mexem à flor de correnteza estrênua. Drede detendo-me de algum juízo entre o quer-que de homólogo ou díspar, aí, eventos e causas. Quem julga? Apreendeu já alguém, sobre o fluxo dos fenômenos e dar-se de valores instantâneos, a ortografia das tortas linhas altas? Seja sim obediente então a intenção - em que quanta composta coisa se insere, coalesce e coere. Teste-se, no mais severo balanço, sem encarecimento, de João Neves da Fontoura: não um bélico tumultueiro, lansquenete, buscador de vantagens ou construtor de revanches. Só o servidor enxuto. Sete-capotes, rompe-gibão, tranca-porteiras, angico-branco, ouricuri que a queimada lambe e poupa, quebra-machado, tamboril-bravo. Até ao final, montou guarda.

Mas, política, tempo e modo, mudavam em antes não visto acelerar-se, ultrapassante, enquanto que a idade pegava-o já com meio frias meias mãos; tanto o viver vai maior e mais ligeiro que a gente. - "A vida é uma série crescente de restrições" - falava-me. Rejeitara ainda ser Ministro do Exterior do Governo Kubitschek. Na lonjura as trépitas festas de orador - e a diminuição auditiva (dizia-se ele um "hipoacúsico") toda maneira tolher-lhe-ia a tribuna polêmica. Embora, à altura, procurado sempre para opinião e conselho, irradiador, prezada mais sua presença condutora. Então entrou à imprensa que nem a outra paliçada. Formou de jornalista, dos pontualmente mais atuantes, em artigos e editoriais, coraçonados, escorridos, acertantes, de destopeteada bravura. Das coleções de O Globo, por mencionar, estariam de desentranhar-se, desses, volume e volume.

E envelhecia bem; isto é, tomava posse do passado. O passado também é urgente. Abriu-o em todas as páginas. Escreveu as "MEMÓRIAS". Narração e demonstração. O lutador conta - descreve as passagens de próprias guerras, fama devida... - perfila-se. Máxime. Não era homem de não prosseguir, ao sol-entrar, quando a lembrança cria exemplo. Fez grande, importante livro. Tirando-o de cadernos, maços de documentos, tanto quanto do tutano da memória, mesma, objetiva e afetiva, recuo montante. Mais de sua arte de rever e aviventar, forte honestíssima. Fiel às amizades e às inimizades; leal, acima, à verdade, perceba-se. Ivan Lins refere como João Neves fiou-lhe a ler os originais e tomou em rigorosa atenção todas as retificações; procedeu também assim com outros, igualmente íntegros e fidedignos. Quis ser justo, daí o escrúpulo e cuidados para com os fatos. Vereis que pôde falar, em desaparato, do muito que foi, "a contragosto, e o imenso que não quis ser". Seu ethos - o da era, que começa, dos comportamentos a descoberto - é o roteiro esforçado da fé e a dinâmica da humildade. A de homem culto: o que sabe pensar. Por outra parte, são as "Memórias" livro de que se honrará a nossa cultura. Relede-lo. Jamais enfara; cativa e gratifica, a cada volta; com ele se convive. Tudo põe e repõe, desenredado, simplificado, pormiudamente humano, com tacto e lisura, tanto bastante. João Neves nele confessa-se, espontâneo e discreto, desimpedido e comedido, como um recibo de entendimento, como o clamor de um cochicho. Vem franquear, a quantos, um fundo de consciência, o centro de sua personalidade. Ele mesmo - transretratado. Direi, escreveu-o para o Juízo Final, como todo livro deveria ser escrito.

Seu fervor literário, aliás, se extravasava sempre. Lido, lia em dia, fazendo das leituras a um tempo húmus para a mente e estímulo às idéias que povoavam-lhe aqueles retidos "territórios íntimos". Dividia-os, entanto, prazeroso pleno conversador, nos entremeios da ação, lembro-o de novo: quaisquer vezes, quando a gente corria - "Allons-y!" - estradas de Flandres e Holanda, ou passeando sós longo-praias de Ipanema e Leblon, ou tomando chá à beira do Marne, qual se sob sombra de um plátano à borda do Ilissos, quer debaixo de caraíba ou umbu, vendo a covilha ou a chapada.

Nem esqueço, em Bogotá, quando a multidão, mó milhares, estourou nas ruas sua alucinação, tanto o medonho esbregue de uma boiada brava. Saqueava-se, incendiava-se, matava-se etc. Três dias, sem policiamento, sem restos de segurança, o Governo mesmo encantoado em palácio. Éramos, bloqueados em vivenda num bairro aristocrático, cinco brasileiros, e penso que nem um revólver. Recorro a notas: "12.IV.48 - 22 hs. 55'. Tiros. Apagamos a luz." Mas, o que, com João Neves, por sua calma instigação, então discorríamos, a rodo, eram matérias paregóricas: paleontologia, filosofia, literatura; ou lembrava tropelias brilhantes de seu Sul, citava o saudoso nosso Dr. Glicério Alves, nobre tipo humano, do melhor gaúcho e amigo. E, todavia foi sua determinada e ativa decisão um dos ponderáveis motivos por que a IX Conferência se manteve na capital andina, adiante e a cabo.

Sua contenção derivava do bom gosto, essa forma ameníssima de renúncia; imolava-se, diário diuturno, com naturalidade. Daí a gentileza de espírito e elegância de maneiras - econômico de corpo mas nãonadamente mesquinho, petulante ou cosquilhoso - jamais vulgar nem em desclasse. E a permanente galanteria: portava-se com sua netinha Fátima como se perante uma lady ou um flirte. E no neto Joãozinho já visse futuro o adulto, seu continuador em renome, renhir, responsabilidades. Sob o afoito combativo, a gente acertava mais, sempre, a tranqüila sabedoria do medimento: sophrosyne. Não punha contra si em movimento os mecanismos da Nêmesis. Era quase como um menino que ele pedia alguma coisa à vida. Compreensivo, notava-se pela benevolência e de-sobra tolerância - "Ninguém muda ninguém..." - não julgava. Usava e dava a esperança. Imortal é o que é do sofrido e espírito; tudo, abaixo daí, é póstumo. As coisas que ele me disse não se afastam com o tempo.

E expande-se: "... cada alma vai sentindo, na descida do caminho, a ânsia de se devotar a deveres mais altos do que as paixões públicas." Tem-se então, imediato, avançando dos grandes fundos, outra extraordinária personalidade, Arthur da Silva Bernardes, que faleceu súbito, em meio à lida lúcida, mas deixando, como por toque de preconhecimento, num derradeiro bilhete: "O fim do homem é Deus, para o qual devemos, preferentemente, viver. Eu, porém, vivi mais para a Pátria, esquecendo-me d'Ele" - pedindo ainda aos amigos, correligionários, e aos de boa-vontade, que com orações o ajudassem a resgatar aquela falta.

João Neves, tão perto o termo, comentávamos, suas filhas e eu, temas desses, de realidade e transcendência; porque agradava-lhe escutar, ainda que não tomando parte. Até que falou: - "A vida .é inimiga da fé..." - apenas; ei-Io, ladeira pós ladeira, sem querer fim de estrada. Descobrisse, como Plotino, que "a ação é um enfraquecimento da contemplação"; e assim Camus, que "viver é o contrário de amar." Não que a fé seja inimiga da vida. Mas, o que o homem é, depois de tudo, é a soma das vezes em que pôde dominar, em si mesmo, a natureza. Sobre o incompleto feitio que a existência lhe impôs, a forma que ele tentou dar ao próprio e dorido rascunho.

Talvez, também, o recado melhor, dele ouvi, quase in extremis: - "Gosto de você mais pelo que você é, do que pelo que você fez por mim..." Posso calá-lo? Não, porque sincero sei: exata estaria, sim, a recíproca, tanto a ele eu tivesse dito. E porque deve ser esta a comprovação certa de toda verdadeira amizade - impreterida a justiça, na medida afetuosa. Acredito. Nem creio destoante ou mal assentado, numa solene inauguração de acadêmico, sem nota de despondência, algum conteúdo de testamento. Giremos a perspectiva.

Ainda talvez mais que eu, ele vos agradeceria minha presença aqui, aonde desejei vir – para o ver "claro e quieto" que Machado de Assis inculca. Só não cismando, há-de-o, que em sua mesma vereda, a subseguir, orgulhoso e transido, o elenco destes que ganharam vida difícil, trabalharam sem repouso e hora por hora renderam-se à intimação interna - escolha ou chamado. Eles, Neves da Fontoura, Álvares de Azevedo, o que morreu moço, poento de poesia. Coelho Neto, amoroso pastor da turbamulta das palavras. Tenho-os comigo. Pois não descendemos dos mortos?

Deferidos, entretanto, à simpatia dos vivos. Vós. Demais que vindo-me o bom modo de vosso agasalho pela palavra de um a mim bem próximo, admirado e querido, malungo, autorizado. Afonso Arinos de MeIo Franco -: capaz para pretender-se "mineiro, totalmente", por estirpe e por espécie, "das Gerais e dos Gerais"; idôneo de declarar que tudo o que sente de mais espontâneo e natural no seu espírito "tende a considerar intelectualmente e mesmo literariamente a vida"; autor de A Alma do Tempo, que fundo releio, para alongamento e consolo, um dos livros maiores do pensar e sentir brasileiros; originário dessa Paracatu - grande e memoriosa entre chapadões sertões -, e cuja estranha notícia, trazida por vaqueiros, boiadeiros, tropeiros, desde a meninice enriquecia-me a imaginação, qual outrotanta maravilhosa Tombuctu, a depois do Saara, sobrenomeada "a Rainha das Areias". Dele temo e alegra-me ouvir afirmações de doador muito entusiasmado; já que arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas. Trar-me-á, igual, simbólico, vosso primeiro abraço, o escritor sem falsas e amigo sem falha: Josué Montello. Cumulo-me.

Nem agüentaria dobrar mais momentos, nesta festa aniversária - dele, a octogésima, que seria hoje, no plano terreno. Tanto tempo a esperei, e fiz que esperásseis. Relevai-me.

Foi há mais de quatro anos, a recém. Vésper luzindo, ele cumprira. De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias.

Mas - o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? “Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta" - Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita. A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: JOÃO NEVES DA FONTOURA.

Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: "Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!" - desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Soprem-se as oitenta velinhas.

Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.

- Ministro, está aqui CORDISBURGO.

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS MAIORES


A maior conquista é abnegação.
O maior valor é autodomínio.
A maior qualidade é procurar servir aos outros.
O maior preceito é a conscientização contínua.
O melhor remédio é o vazio de tudo.
A maior ação não é conforme com as formas mundos.
A maior mágica é transmutar as paixões.
A maior generosidade é o não-apego.
A maior bondade é uma mente pacífica.
O maior paciência é a humildade.
O maior esforço não está preocupado com os resultados.
O maior meditação é uma mente que deixa estar.
A maior sabedoria é ver através das aparências .

ATISHA(982-1054)


quarta-feira, 27 de abril de 2011

ESTE SERÁ MEU CUMPRIMENTO - poema de Jefferson Bessa



acabaram meus cigarros
dinheiro tenho pouco
nem uma pessoa influente de poder conheço
não levarei ninguém a qualquer promoção
portanto, não leia este verso
este poema como um meio,
por ele – que sou eu –
não chegará a nenhum futuro brilhante
nem a ocupar um cargo de bom salário
ou daqueles de excelentes aparências.
não tenho nem como trocar favores
não tenho nada que lhe possa interessar
se for por isso nem mesmo um minuto
vale perder comigo.
não precisa de discrição,
afasta-se rápido
finja em qualquer lugar que passo despercebido.
muitos conhecidos pensam em me querer
- no mínimo do que tenho.
mas não tenho nada, nem o mínimo
nem mesmo um verso rimado
não tenho o que oferecer
pode pensar que me ver
é avistar um rosto de dia de semana
um rosto de olhar cansado o trajeto de uma terça-feira
sim, sou um dia de semana arrastado
sem uma ninharia.
melhor, então, é me deixar jogado num canto
prometo que a partir de hoje
logo que alguém falar comigo
antes de todas as coisas falarei assim direto
não tenho nada – será meu cumprimento

domingo, 28 de março de 2010

LUIS ALVES DE MATTOS



LUIS ALVES DE MATTOS

APRENDIZAGEM

1. Em séculos pregressos predominava a noção simplista e errônea de que aprender era memorizar, a ponto do aluno poder repetir "ipsis verbis" os textos do compêndio ou as palavras do professor. Na base dêste falso pressuposto, ensinar era sinônimo de marcar e tomar lições decoradas aos alunos. Infelizmente, ainda há professores que se pautam por esta noção simplista e pré-científica do século XVI, mantendo-se num pequeno
atraso de 400 anos... Não será, certamente, com textos e frases decoradas que na vida resolveremos nossos problemas ou obteremos sucesso nos nossos empreendimentos; e já Sêneca dizia que aprendemos, não para a escola, mas para a vida; a simples memorização de textos e palavras não prepara ninguém para as realidades da vida e sua complexa problemática; não desenvolve a inteligência, não aguça o discernimento nem estimula a reflexão; forma, apenas, repetidores passivos.
2. A partir do século XVII predominou a fórmula de Comenius: "intellectus, memoria et usus": primeiro a compreensão reflexiva; depois, a memorização do compreendido; por fim, a aplicação do que já foi compreendido e memorizado. Na base destas novas premissas, o ensino passou a ser fortemente expositivo e explicativo, complementado por tomadas de lição e correção de exercícios de aplicação; impunha-se fazer os alunos compreenderem primeiro aquilo que teriam de aprender. Isso representou, na época, um progresso.
Mas, modernamente, verifica-se que a mera explanação verbal do professor não é tão essencial e indispensável para o aprender dos alunos; serve apenas para iniciar a aprendizagem, mas não para integra-la, levando-a a bom têrmo. Do fato de o professor ter explicado muito bem a matéria não se pode concluir que os alunos já aprenderam. Em centenas de escolas progressistas suprimiram-se por completo as aulas expositivas do professor, e, pelo estudo dirigido apenas, obteve-se maior rendimento da aprendizagem. .
A fórmula de Comenius pecava pelo secionamento do processo da aprendizagem em três etapas artificialmente separadas. De fato, a compreensão, a retenção mnemônica e a aplicação se fundem no mesmo processo unitário da experiência; compreende-se melhor uma cousa quando se experimenta e se lida diretamente com ela; a retenção mnemônica resulta natural e espontânea de tôda a experiência vivida intensamente.
Compreensão, memorização e aplicação não são fases distintas e sucessivas da experiência de aprendizagem; são antes aspectos integrantes da mesma experiência, quando esta se desenvolve num plano de autenticidade.
3. O processo de aprendizagem dos alunos, cujo planejamento, direção e contrôle cabem ao docente, é assaz complexo. Podemos apreender de relance um fato, uma reação, uma conseqüência ou um dado informativo isolado. Mas, a aprendizagem definitiva de um conjunto sistemático de conteúdos culturais, implícitos numa matéria de ensino, é um processo lento, gradual e complexo de assimilação.
Sintetizando e esquematizando para fins de estudo, podemos discernir nesse processo etapas bem definidas. Em tôda aprendizagem sistemática, o reagente humano:
(a) passa de um estado de sincretismo inicial, no qual abundam noções vagas, confusas e errôneas, flutuando sôbre um fundo indiferenciado de cândida ignorância e perplexidade, para...
(b) uma fase de focalização analítica, em que cada parte do todo é, por sua vez, examinada, identificada nos seus pormenores e nas suas particularidades. Alguns psicólogos e didatas designam esta fase de "diferenciação", de "discriminação" ou simplesmente de "análise"; esta fase de percepção analítica é essencial no processo da aprendizagem;
(c) uma fase de ativação, em que os dados passam a ser manipulados e utilizados em composições, exercícios, trabalhos práticos etc.;
(d) segue-se uma fase de síntese integradora, na qual os pormenores se estruturam em perspectivas da essencialidade, do relacionamento e da importância dos princípios, dados e fatos já analisados e manipulados, integrando-se num todo coerente de significados, de compreensões ou de habilitações. É a fase que os norte-americanos chamam de "integração" e outros de "síntese";
(e) didaticamente, seguir-se-á uma fase final de consolidação ou de fixação, na qual, por exercícios e repasses iterativos, o que foi aprendido analítica, ativa e sinteticamente, é ex professo reforçado ou fixado, de modo a tornar-se uma aquisição integrada e definitiva na mente do aluno.
4. Mas, o esquematismo lógico destas fases e de sua seqüência poderia levar-nos a uma noção errônea o processo da aprendizagem, como êle se opera na realidade das salas de aula. De fato, estas fases não são estanques; não há um momento preciso no qual podemos dizer que termina uma fase e começa outra. Na fase de focalização analítica já vão emergindo algumas sínteses integradoras, ainda parciais e incompletas; na fase de síntese integradora ainda podem emergir novas focalizações analíticas, que foram deixadas de lado na fase anterior, enquanto que a fase de consolidação ou fixação vem se processando, como uma corrente submersa, através de todo o processo, para entrar em pleno foco no final dêsse mesmo processo. Há entre essas fases repetidas superposições e retornos, num complexo encadeamento dinâmico de progressiva assimilação.
5. Mas, não se esgota com isso a relatividade do esquema que acima traçamos. Nossos alunos não são produtos padronizados e não reagem todos da mesma maneira e com o mesmo ritmo e intensidade. Há entre eles traços e diferenças individuais irredutíveis quanto ao seu nível de maturação, capacidade geral de apreensão, preparo escolar, aptidões específicas, domínio e compreensão do vocabulário, método e ritmo de trabalho, resistência à fadiga, sensibilidade, bem como quanto aos seus ideais, atitudes, preferências, motivação interior, mira prospectiva e nível de aspiração.
Identificar êstes traços e diferenças individuais, explorar suas possibilidades, suprir suas deficiências e, mesmo assim, enquadrar todos os alunos num plano de aprendizagem progressiva, dinâmica e eficaz, orientando, dirigindo e controlando o seu processamento em vista de objetivos social e profissionalmente valiosos, eis: o que é ensinar no seu mais autêntico sentido moderno.
6. A essência do "aprender" não está, portanto, em decorar mecânicamente textos de livros, nem em ouvir com atenção explanações verbais do mestre. Está, isso sim, na atividade mental intensiva e propositada a que os alunos são levados, no trato direto com os dados da matéria, visando a assimilar o seu conteúdo e os seus significados. Essa atividade mental intensiva e propositada dos alunos pode assumir as mais variadas formas, conforme a matéria em estudo e o método de trabalho empregado.
Os alunos estarão realmente aprendendo quando:
(a) fazem observações diretas de fatos, processos, filmes e demonstrações que lhe são apresentados;
(b) planejam e realizam experiências, formulam e testam hipóteses e anotam seus resultados;
(c) consultam livros, revistas, dicionários, em busca de fatos e de esclarecimentos; extraem notas, organizam fichários, quadros comparativos e tabelas;
(d) escutam, lêem, tomam notas, passam a limpo essas notas e as suplementam com extratos de outros autores, de outras fontes e com suas observações pessoais;
(e) apresentam dúvidas, pedem esclarecimentos, formulam objeções, discutem entre si, comparam e verificam, definem conceitos e firmam significados, manipulam símbolos;
(f) fazem exercícios de aplicação, composições e ensaios; concebem projetos e planos, estudam suas possibilidades e os executam; organizam relatórios, resumos e sinopses;
(g) colaboram com o professor e auxiliam-se mutuamente na execução de trabalhos, no esclarecimento das dúvidas e na solução dos problemas;
(h) realizam cálculos e aplicam tabelas; desenham e ilustram; transcrevem, reduzem ou ampliam a escala de mapas; preenchem e ilustram mapas mudos, compõem mapas originais, fazem repetidos exercícios etc.;
(i) procuram, colecionam, identificam, comparam e classificam amostras, espécimens, selos, gravuras, plantas, objetos, fotografias etc.;
(j) respondem a interrogatórios e a testes, procuram resolver problemas, identificam erros, corrigem seus próprios erros ou os de seus colegas etc. . .
Esta lista de atividades de aprendizagem longe está de ser completa; além destas, há muitas outras formas práticas que, combinadas, produzem os resultados desejados, pois que constituem autênticas experiências de aprendizagem. Tôda a aprendizagem é um processo eminentemente ativo e experiencial, cujos componentes são a atividade e a reflexão.
O denominador comum de tôdas essas formas práticas de aprendizagem é o caráter reflexivo e assimilativo dessas atividades, aplicadas aos dados da matéria, visando a metas definidas e a resultados concretos em cada. caso. A autêntica aprendizagem consiste exatamente nessas experiências concretas de trabalho reflexivo sôbre os fatos e valores da cultura e da vida, ampliando as possibilidades de compreensão e de interação do educando com o seu ambiente e com a sociedade.
7. Essas experiências de caráter ativo, reflexivo e propositado, quando prosseguidas sistematicamente, exercem uma forte influência dinamizadora sôbre a personalidade dos alunos, modificando substancialmente sua atitude e sua conduta anterior e promovendo a formação de novas atitudes e novas condutas, mais ajustadas e eficazes. Daí a tese corrente de que a aprendizagem consiste essencialmente na modificação do comportamento do aluno e no enriquecimento de sua personalidade. De fato, tôda a autêntica experiência reflexiva e propositada de aprendizagem deve objetivar concretamente êstes resultados:
(a) modificar a atitude e a conduta anterior do aluno;
(b) promover a formação de novas atitudes e novas condutas, mais esclarecidas, ajustadas e eficazes;
(c) enriquecer a personalidade do aluno com novos e melhores recursos de pensamento, de ação e de convívio social, abrindo-lhe novas perspectivas de cultura e de vida em sociedade.
Nisso está o verdadeiro valor educativo da aprendizagem escolar e sua razão de ser.
8. Muito longe estamos, portanto, do antigo conceito pré-científico de que os alunos aprendiam apenas ouvindo passivamente as explanações do mestre e decorando textualmente as lições do compêndio. O resultado disso só podia ser uma pseudo-aprendizagem de fórmulas verbais sem nexo ou confusamente repetidas pelos alunos, sem nenhum proveito real para a vida. Já Sêneca dizia na antiguidade: "Que loucura é dedicar-se a aprender coisas inúteis no meio da miséria dêstes tempos! . . ." Muito do que os alunos são obrigados a decorar nas nossas escolas pertence ao rol dessas coisas inúteis, que nada contribuem para o esclarecimento de suas condições de vida, para a melhoria da sua conduta ou para o enriquecimento de sua personalidade. (Sumário de didática geral)

quarta-feira, 24 de março de 2010

João Cabral de Melo Neto







João Cabral por João Cabral




MEDO DA MORTE: "Estava na casa de Rubem Braga de passagem pelo Rio, e foram lá umas moças fazer uma entrevista comigo. Eu então falei do meu pavor da morte. Aí, o Rubem Braga, que era um grande gozador, disse: ‘Você fala tanto de medo do inferno, que vão acabar criando um inferno só para você!’ Tenho medo da morte e do inferno, porque fui criado em colégio católico, com aquela mentalidade ainda antiga... Hoje, a Igreja parece estar mais liberal..."


DRUMMOND: "A poesia brasileira foi sempre preponderantemente lírica. Mesmo um poeta pouco lírico como Carlos Drummond de Andrade tem momentos de lirismo. Murilo Mendes era um lírico; Jorge de Lima era um lírico; Mario de Andrade era um lírico; Manuel Bandeira era um lírico. Drummond era o menos lírico, mas mesmo assim tem momentos de lirismo. Na literatura brasileira, Drummond foi meu grande mestre, com aquela poesia prosaica e direta. Só que ele de vez em quando caía na prosa discursiva. Eu nunca caí no discursivo. No Brasil se confunde muito poesia com lirismo. É herança dos portugueses, que são muito líricos. Mesmo Camões, um poeta épico, tem momentos de lirismo."

LIÇÃO DE TOUREIRO: "Quando fui à primeira corrida de touros, achei que não ia gostar, por causa desse negócio da morte. Mas o toureiro se expõe a tais perigos, que você acaba sentindo solidariedade. Manolete (Manuel Rodríguez Sánchez, que inventou um estilo econômico na tauromaquia) me ensinou muito em matéria de poesia, porque ele toureava de uma maneira essencial. Não dava um passo a mais. Ficava parado e o touro é que se desviava dele. O Cordobez (Manuel Benítez, El Cordobez, outro mito espanhol) tinha uma grande coragem, mas era muito espalhafatoso. Ele se ajoelhava na frente do touro e fazia essas coisas que entusiasmavam o povo, mas para os verdadeiros aficionados não surtia efeito. Manolete matou o touro que também o matou com uma única estocada, perfeita. Morreu porque para dar a estocada bem dada, você tem que se aproximar do touro e este o atingiu com o chifre direito, que rompeu a veia femoral. Tourear não é uma coisa para qualquer um. Tive um amigo que conheceu Manolete e lamentava por eu não ter sido apresentado a ele. Dizia que nunca tinha conhecido duas pessoas com tanta capacidade para se tornarem amigas como nós dois. E dizia que nossas personalidades eram tão parecidas que rimavam. Uma rima seca."

POESIA: "Poesia é conhecimento. Inspiração, encanto, não acredito em nada dessas coisas. Poesia é esforço, é consciência, é cultura. O sujeito não pode ser inteiramente inculto e sair escrevendo poesia, por mais inspirado que ele seja. O leitor procura sempre na poesia o gênero fácil. Quando ele encontra uma poesia que oferece alguma resistência, recua. Escrever para mim é uma coisa dificílima, porque eu não queria fazer esta poesia que todo mundo faz."

O POEMA, COMEÇO, MEIO E FIM: "A poesia vai se fazendo. Da primeira palavra à última, elas todas têm que ter um sentido. De forma que a primeira é tão difícil quanto a última. Sei quando é a última quando o poema ganha aquele corpo e eu vejo quando é o momento de concluir. Certos poemas contêm eles mesmos seu princípio e seu fim. Veja ‘O rio’ e ‘Morte e vida severina’. ‘O rio’ começa no sertão e acaba no Atlântico. Portanto, o fim dele não depende de mim. ‘Morte e vida severina’, também. O sujeito vem do sertão para Recife. O princípio já contém o fim."

FLAMENCO: "Uma vez eu estava num lugar de flamenco com uma bailarina sevilhana. Tinha um sujeito cantando e eu perguntei: ‘Te gusta este cantador?’ E ela: ‘No! No expone!’ Não se expõe, não faz o máximo. E o sevilhano quer sempre a coisa feita no máximo. Fazer no extremo, onde o risco começa."

VINICIUS DE MORAES: "Estava em Genebra e passou por lá o Vinicius de Moraes, que era muito meu amigo, e era um lírico. E Vinicius nesse tempo já estava fazendo música. O (diplomata) Alfredo Valadão organizou uma reunião na casa dele. Vinicius ia cantando e a filha do Valadão, Maria Lúcia, ia gravando. Ele cantava aquelas coisas... Bossa nova e tal, falando sempre de coração, né? No meio da gravação, se ouve minha voz, no fundo da sala, dizendo: ‘Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?’ E ele respondeu: ‘Já vem você com seu racionalismo. Ainda hei de pôr música no ‘Poema da cabra’’. Mas ele não podia cumprir a promessa, né? E olha que ele gostava muito da minha poesia, me encorajava muito. E é um grande poeta. No fim da vida ele descambou para esse negócio de música popular por necessidade. Porque Vinicius casou muitas vezes, tinha tantas mulheres e tinha que dar pensão a todas elas. Entrou nesse negócio de música popular brasileira para ganhar dinheiro. Ele me chamava de ‘camarada diamante’ porque eu pregava uma coisa cartesiana e não caía nestas coisas de lirismo."

"LE CORBUSIANO": "Não acredito em inspiração. Nisso, sou ‘Le Corbusiano’. Acredito em trabalho. Agora, viajar, claro, abre horizontes. Se não tivesse sido diplomata, faria uma poesia completamente diferente. Pernambuco, por exemplo, eu comecei a escrever sobre Pernambuco depois que saí de lá. Este recuo é necessário. De longe, você vai lembrando de sua vida, da paisagem e consegue ver o que dá poesia."

ESCREVER SOBRE PERNAMBUCO: "Meus primeiros livros não falam em Pernambuco. Depois fui para Barcelona onde escrevi ‘Psicologia da composição’ e ‘A fábula de Anfion’, certo de que não queria escrever mais. Ler para mim era muito mais agradável do que escrever. Um dia eu cheguei no consulado e descobri na revista ‘O Observador Econômico e Financeiro’ que a expectativa de vida na Índia era de 29 anos e no Recife era de 28. E fiquei tão impressionado que escrevi ‘O cão sem plumas’, que é o meu primeiro livro sobre Pernambuco. Aí Pernambuco não me largou mais."

MÚSICA: "Eu ouço bem, mas não presto muita atenção a nada do que ouço. Só presto atenção lendo, olhando. Por isso a pintura e a arquitetura tiveram uma grande influência sobre mim, e a música não teve."

A CRÍTICA E O DESEJO DE SER CRÍTICO: "Minha poesia é uma poesia difícil, de forma que muitas vezes o crítico se serve dela para brilhar. Queria ser crítico na adolescência, mas vi que não tinha experiência nem cultura para isso."





domingo, 31 de janeiro de 2010

PARA STELLA


PARA STELLA




Clarisse de Oliveira






Stella,
houve um milagre na Terra
- teu filho, uniu-se numa obra de Amor
comigo
A essencia desse sentimento,
te envio onde estás no Espaço!
Pressinto-te jovem e bela,
como sempre fostes,
sem a aridez do Planeta
que tudo envelhece.
Está a teus pés,
Diante de ti,
o Amor em prata,
com reflexos de Estrela,
aos teus pés!
Sempre Clarisse




(Stella Samuel, mãe de Rogel Samuel, faleceu em 21/11/2007)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Balada para todo amor

todo amor é assim, plágio
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na tua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes
pois sua loucura é o nada.

rogel samuel

["Balada para todo amor, em 14 de maio de 2.000]