LUIS ALVES DE MATTOS
APRENDIZAGEM
1. Em séculos pregressos predominava a noção simplista e errônea de que aprender era memorizar, a ponto do aluno poder repetir "ipsis verbis" os textos do compêndio ou as palavras do professor. Na base dêste falso pressuposto, ensinar era sinônimo de marcar e tomar lições decoradas aos alunos. Infelizmente, ainda há professores que se pautam por esta noção simplista e pré-científica do século XVI, mantendo-se num pequeno
atraso de 400 anos... Não será, certamente, com textos e frases decoradas que na vida resolveremos nossos problemas ou obteremos sucesso nos nossos empreendimentos; e já Sêneca dizia que aprendemos, não para a escola, mas para a vida; a simples memorização de textos e palavras não prepara ninguém para as realidades da vida e sua complexa problemática; não desenvolve a inteligência, não aguça o discernimento nem estimula a reflexão; forma, apenas, repetidores passivos.
2. A partir do século XVII predominou a fórmula de Comenius: "intellectus, memoria et usus": primeiro a compreensão reflexiva; depois, a memorização do compreendido; por fim, a aplicação do que já foi compreendido e memorizado. Na base destas novas premissas, o ensino passou a ser fortemente expositivo e explicativo, complementado por tomadas de lição e correção de exercícios de aplicação; impunha-se fazer os alunos compreenderem primeiro aquilo que teriam de aprender. Isso representou, na época, um progresso.
Mas, modernamente, verifica-se que a mera explanação verbal do professor não é tão essencial e indispensável para o aprender dos alunos; serve apenas para iniciar a aprendizagem, mas não para integra-la, levando-a a bom têrmo. Do fato de o professor ter explicado muito bem a matéria não se pode concluir que os alunos já aprenderam. Em centenas de escolas progressistas suprimiram-se por completo as aulas expositivas do professor, e, pelo estudo dirigido apenas, obteve-se maior rendimento da aprendizagem. .
A fórmula de Comenius pecava pelo secionamento do processo da aprendizagem em três etapas artificialmente separadas. De fato, a compreensão, a retenção mnemônica e a aplicação se fundem no mesmo processo unitário da experiência; compreende-se melhor uma cousa quando se experimenta e se lida diretamente com ela; a retenção mnemônica resulta natural e espontânea de tôda a experiência vivida intensamente.
Compreensão, memorização e aplicação não são fases distintas e sucessivas da experiência de aprendizagem; são antes aspectos integrantes da mesma experiência, quando esta se desenvolve num plano de autenticidade.
3. O processo de aprendizagem dos alunos, cujo planejamento, direção e contrôle cabem ao docente, é assaz complexo. Podemos apreender de relance um fato, uma reação, uma conseqüência ou um dado informativo isolado. Mas, a aprendizagem definitiva de um conjunto sistemático de conteúdos culturais, implícitos numa matéria de ensino, é um processo lento, gradual e complexo de assimilação.
Sintetizando e esquematizando para fins de estudo, podemos discernir nesse processo etapas bem definidas. Em tôda aprendizagem sistemática, o reagente humano:
(a) passa de um estado de sincretismo inicial, no qual abundam noções vagas, confusas e errôneas, flutuando sôbre um fundo indiferenciado de cândida ignorância e perplexidade, para...
(b) uma fase de focalização analítica, em que cada parte do todo é, por sua vez, examinada, identificada nos seus pormenores e nas suas particularidades. Alguns psicólogos e didatas designam esta fase de "diferenciação", de "discriminação" ou simplesmente de "análise"; esta fase de percepção analítica é essencial no processo da aprendizagem;
(c) uma fase de ativação, em que os dados passam a ser manipulados e utilizados em composições, exercícios, trabalhos práticos etc.;
(d) segue-se uma fase de síntese integradora, na qual os pormenores se estruturam em perspectivas da essencialidade, do relacionamento e da importância dos princípios, dados e fatos já analisados e manipulados, integrando-se num todo coerente de significados, de compreensões ou de habilitações. É a fase que os norte-americanos chamam de "integração" e outros de "síntese";
(e) didaticamente, seguir-se-á uma fase final de consolidação ou de fixação, na qual, por exercícios e repasses iterativos, o que foi aprendido analítica, ativa e sinteticamente, é ex professo reforçado ou fixado, de modo a tornar-se uma aquisição integrada e definitiva na mente do aluno.
4. Mas, o esquematismo lógico destas fases e de sua seqüência poderia levar-nos a uma noção errônea o processo da aprendizagem, como êle se opera na realidade das salas de aula. De fato, estas fases não são estanques; não há um momento preciso no qual podemos dizer que termina uma fase e começa outra. Na fase de focalização analítica já vão emergindo algumas sínteses integradoras, ainda parciais e incompletas; na fase de síntese integradora ainda podem emergir novas focalizações analíticas, que foram deixadas de lado na fase anterior, enquanto que a fase de consolidação ou fixação vem se processando, como uma corrente submersa, através de todo o processo, para entrar em pleno foco no final dêsse mesmo processo. Há entre essas fases repetidas superposições e retornos, num complexo encadeamento dinâmico de progressiva assimilação.
5. Mas, não se esgota com isso a relatividade do esquema que acima traçamos. Nossos alunos não são produtos padronizados e não reagem todos da mesma maneira e com o mesmo ritmo e intensidade. Há entre eles traços e diferenças individuais irredutíveis quanto ao seu nível de maturação, capacidade geral de apreensão, preparo escolar, aptidões específicas, domínio e compreensão do vocabulário, método e ritmo de trabalho, resistência à fadiga, sensibilidade, bem como quanto aos seus ideais, atitudes, preferências, motivação interior, mira prospectiva e nível de aspiração.
Identificar êstes traços e diferenças individuais, explorar suas possibilidades, suprir suas deficiências e, mesmo assim, enquadrar todos os alunos num plano de aprendizagem progressiva, dinâmica e eficaz, orientando, dirigindo e controlando o seu processamento em vista de objetivos social e profissionalmente valiosos, eis: o que é ensinar no seu mais autêntico sentido moderno.
6. A essência do "aprender" não está, portanto, em decorar mecânicamente textos de livros, nem em ouvir com atenção explanações verbais do mestre. Está, isso sim, na atividade mental intensiva e propositada a que os alunos são levados, no trato direto com os dados da matéria, visando a assimilar o seu conteúdo e os seus significados. Essa atividade mental intensiva e propositada dos alunos pode assumir as mais variadas formas, conforme a matéria em estudo e o método de trabalho empregado.
Os alunos estarão realmente aprendendo quando:
(a) fazem observações diretas de fatos, processos, filmes e demonstrações que lhe são apresentados;
(b) planejam e realizam experiências, formulam e testam hipóteses e anotam seus resultados;
(c) consultam livros, revistas, dicionários, em busca de fatos e de esclarecimentos; extraem notas, organizam fichários, quadros comparativos e tabelas;
(d) escutam, lêem, tomam notas, passam a limpo essas notas e as suplementam com extratos de outros autores, de outras fontes e com suas observações pessoais;
(e) apresentam dúvidas, pedem esclarecimentos, formulam objeções, discutem entre si, comparam e verificam, definem conceitos e firmam significados, manipulam símbolos;
(f) fazem exercícios de aplicação, composições e ensaios; concebem projetos e planos, estudam suas possibilidades e os executam; organizam relatórios, resumos e sinopses;
(g) colaboram com o professor e auxiliam-se mutuamente na execução de trabalhos, no esclarecimento das dúvidas e na solução dos problemas;
(h) realizam cálculos e aplicam tabelas; desenham e ilustram; transcrevem, reduzem ou ampliam a escala de mapas; preenchem e ilustram mapas mudos, compõem mapas originais, fazem repetidos exercícios etc.;
(i) procuram, colecionam, identificam, comparam e classificam amostras, espécimens, selos, gravuras, plantas, objetos, fotografias etc.;
(j) respondem a interrogatórios e a testes, procuram resolver problemas, identificam erros, corrigem seus próprios erros ou os de seus colegas etc. . .
Esta lista de atividades de aprendizagem longe está de ser completa; além destas, há muitas outras formas práticas que, combinadas, produzem os resultados desejados, pois que constituem autênticas experiências de aprendizagem. Tôda a aprendizagem é um processo eminentemente ativo e experiencial, cujos componentes são a atividade e a reflexão.
O denominador comum de tôdas essas formas práticas de aprendizagem é o caráter reflexivo e assimilativo dessas atividades, aplicadas aos dados da matéria, visando a metas definidas e a resultados concretos em cada. caso. A autêntica aprendizagem consiste exatamente nessas experiências concretas de trabalho reflexivo sôbre os fatos e valores da cultura e da vida, ampliando as possibilidades de compreensão e de interação do educando com o seu ambiente e com a sociedade.
7. Essas experiências de caráter ativo, reflexivo e propositado, quando prosseguidas sistematicamente, exercem uma forte influência dinamizadora sôbre a personalidade dos alunos, modificando substancialmente sua atitude e sua conduta anterior e promovendo a formação de novas atitudes e novas condutas, mais ajustadas e eficazes. Daí a tese corrente de que a aprendizagem consiste essencialmente na modificação do comportamento do aluno e no enriquecimento de sua personalidade. De fato, tôda a autêntica experiência reflexiva e propositada de aprendizagem deve objetivar concretamente êstes resultados:
(a) modificar a atitude e a conduta anterior do aluno;
(b) promover a formação de novas atitudes e novas condutas, mais esclarecidas, ajustadas e eficazes;
(c) enriquecer a personalidade do aluno com novos e melhores recursos de pensamento, de ação e de convívio social, abrindo-lhe novas perspectivas de cultura e de vida em sociedade.
Nisso está o verdadeiro valor educativo da aprendizagem escolar e sua razão de ser.
8. Muito longe estamos, portanto, do antigo conceito pré-científico de que os alunos aprendiam apenas ouvindo passivamente as explanações do mestre e decorando textualmente as lições do compêndio. O resultado disso só podia ser uma pseudo-aprendizagem de fórmulas verbais sem nexo ou confusamente repetidas pelos alunos, sem nenhum proveito real para a vida. Já Sêneca dizia na antiguidade: "Que loucura é dedicar-se a aprender coisas inúteis no meio da miséria dêstes tempos! . . ." Muito do que os alunos são obrigados a decorar nas nossas escolas pertence ao rol dessas coisas inúteis, que nada contribuem para o esclarecimento de suas condições de vida, para a melhoria da sua conduta ou para o enriquecimento de sua personalidade. (Sumário de didática geral)
João Cabral por João Cabral
MEDO DA MORTE: "Estava na casa de Rubem Braga de passagem pelo Rio, e foram lá umas moças fazer uma entrevista comigo. Eu então falei do meu pavor da morte. Aí, o Rubem Braga, que era um grande gozador, disse: ‘Você fala tanto de medo do inferno, que vão acabar criando um inferno só para você!’ Tenho medo da morte e do inferno, porque fui criado em colégio católico, com aquela mentalidade ainda antiga... Hoje, a Igreja parece estar mais liberal..."
DRUMMOND: "A poesia brasileira foi sempre preponderantemente lírica. Mesmo um poeta pouco lírico como Carlos Drummond de Andrade tem momentos de lirismo. Murilo Mendes era um lírico; Jorge de Lima era um lírico; Mario de Andrade era um lírico; Manuel Bandeira era um lírico. Drummond era o menos lírico, mas mesmo assim tem momentos de lirismo. Na literatura brasileira, Drummond foi meu grande mestre, com aquela poesia prosaica e direta. Só que ele de vez em quando caía na prosa discursiva. Eu nunca caí no discursivo. No Brasil se confunde muito poesia com lirismo. É herança dos portugueses, que são muito líricos. Mesmo Camões, um poeta épico, tem momentos de lirismo."
LIÇÃO DE TOUREIRO: "Quando fui à primeira corrida de touros, achei que não ia gostar, por causa desse negócio da morte. Mas o toureiro se expõe a tais perigos, que você acaba sentindo solidariedade. Manolete (Manuel Rodríguez Sánchez, que inventou um estilo econômico na tauromaquia) me ensinou muito em matéria de poesia, porque ele toureava de uma maneira essencial. Não dava um passo a mais. Ficava parado e o touro é que se desviava dele. O Cordobez (Manuel Benítez, El Cordobez, outro mito espanhol) tinha uma grande coragem, mas era muito espalhafatoso. Ele se ajoelhava na frente do touro e fazia essas coisas que entusiasmavam o povo, mas para os verdadeiros aficionados não surtia efeito. Manolete matou o touro que também o matou com uma única estocada, perfeita. Morreu porque para dar a estocada bem dada, você tem que se aproximar do touro e este o atingiu com o chifre direito, que rompeu a veia femoral. Tourear não é uma coisa para qualquer um. Tive um amigo que conheceu Manolete e lamentava por eu não ter sido apresentado a ele. Dizia que nunca tinha conhecido duas pessoas com tanta capacidade para se tornarem amigas como nós dois. E dizia que nossas personalidades eram tão parecidas que rimavam. Uma rima seca."
POESIA: "Poesia é conhecimento. Inspiração, encanto, não acredito em nada dessas coisas. Poesia é esforço, é consciência, é cultura. O sujeito não pode ser inteiramente inculto e sair escrevendo poesia, por mais inspirado que ele seja. O leitor procura sempre na poesia o gênero fácil. Quando ele encontra uma poesia que oferece alguma resistência, recua. Escrever para mim é uma coisa dificílima, porque eu não queria fazer esta poesia que todo mundo faz."
O POEMA, COMEÇO, MEIO E FIM: "A poesia vai se fazendo. Da primeira palavra à última, elas todas têm que ter um sentido. De forma que a primeira é tão difícil quanto a última. Sei quando é a última quando o poema ganha aquele corpo e eu vejo quando é o momento de concluir. Certos poemas contêm eles mesmos seu princípio e seu fim. Veja ‘O rio’ e ‘Morte e vida severina’. ‘O rio’ começa no sertão e acaba no Atlântico. Portanto, o fim dele não depende de mim. ‘Morte e vida severina’, também. O sujeito vem do sertão para Recife. O princípio já contém o fim."
FLAMENCO: "Uma vez eu estava num lugar de flamenco com uma bailarina sevilhana. Tinha um sujeito cantando e eu perguntei: ‘Te gusta este cantador?’ E ela: ‘No! No expone!’ Não se expõe, não faz o máximo. E o sevilhano quer sempre a coisa feita no máximo. Fazer no extremo, onde o risco começa."
VINICIUS DE MORAES: "Estava em Genebra e passou por lá o Vinicius de Moraes, que era muito meu amigo, e era um lírico. E Vinicius nesse tempo já estava fazendo música. O (diplomata) Alfredo Valadão organizou uma reunião na casa dele. Vinicius ia cantando e a filha do Valadão, Maria Lúcia, ia gravando. Ele cantava aquelas coisas... Bossa nova e tal, falando sempre de coração, né? No meio da gravação, se ouve minha voz, no fundo da sala, dizendo: ‘Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?’ E ele respondeu: ‘Já vem você com seu racionalismo. Ainda hei de pôr música no ‘Poema da cabra’’. Mas ele não podia cumprir a promessa, né? E olha que ele gostava muito da minha poesia, me encorajava muito. E é um grande poeta. No fim da vida ele descambou para esse negócio de música popular por necessidade. Porque Vinicius casou muitas vezes, tinha tantas mulheres e tinha que dar pensão a todas elas. Entrou nesse negócio de música popular brasileira para ganhar dinheiro. Ele me chamava de ‘camarada diamante’ porque eu pregava uma coisa cartesiana e não caía nestas coisas de lirismo."
"LE CORBUSIANO": "Não acredito em inspiração. Nisso, sou ‘Le Corbusiano’. Acredito em trabalho. Agora, viajar, claro, abre horizontes. Se não tivesse sido diplomata, faria uma poesia completamente diferente. Pernambuco, por exemplo, eu comecei a escrever sobre Pernambuco depois que saí de lá. Este recuo é necessário. De longe, você vai lembrando de sua vida, da paisagem e consegue ver o que dá poesia."
ESCREVER SOBRE PERNAMBUCO: "Meus primeiros livros não falam em Pernambuco. Depois fui para Barcelona onde escrevi ‘Psicologia da composição’ e ‘A fábula de Anfion’, certo de que não queria escrever mais. Ler para mim era muito mais agradável do que escrever. Um dia eu cheguei no consulado e descobri na revista ‘O Observador Econômico e Financeiro’ que a expectativa de vida na Índia era de 29 anos e no Recife era de 28. E fiquei tão impressionado que escrevi ‘O cão sem plumas’, que é o meu primeiro livro sobre Pernambuco. Aí Pernambuco não me largou mais."
MÚSICA: "Eu ouço bem, mas não presto muita atenção a nada do que ouço. Só presto atenção lendo, olhando. Por isso a pintura e a arquitetura tiveram uma grande influência sobre mim, e a música não teve."
A CRÍTICA E O DESEJO DE SER CRÍTICO: "Minha poesia é uma poesia difícil, de forma que muitas vezes o crítico se serve dela para brilhar. Queria ser crítico na adolescência, mas vi que não tinha experiência nem cultura para isso."
PARA STELLA
Clarisse de Oliveira
Stella,
houve um milagre na Terra
- teu filho, uniu-se numa obra de Amor
comigo
A essencia desse sentimento,
te envio onde estás no Espaço!
Pressinto-te jovem e bela,
como sempre fostes,
sem a aridez do Planeta
que tudo envelhece.
Está a teus pés,
Diante de ti,
o Amor em prata,
com reflexos de Estrela,
aos teus pés!
Sempre Clarisse
(Stella Samuel, mãe de Rogel Samuel, faleceu em 21/11/2007)
todo amor é assim, plágio
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na tua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes
pois sua loucura é o nada.
rogel samuel
["Balada para todo amor, em 14 de maio de 2.000]
nossas águas-palavras (para Rogel Samuel)
palavra úmida
palavra água
gravada em seiva
em leitura água-viva.
palavra-ondina
amistosa fluvial.
é nossa face que vibra
por entre a tela líquida.
letras postadas
móveis nos corpos
na confluência de ondas
escritas, magnéticas.
é tinta de olhos
pela entre-onda
muito atenta e diluída
que ondula o poema.
INTIMIDADE
Abgar Renault
As nossas coisas são o nosso convívio verdadeiro.
Uma camisa adere à nossa vida entranhadamente,
como o carinho mais cruel ou como um nome,
e sabe mais de nós que a confissão mais funda.
Um lápis é sempre um sexto dedo,
e é íntimo como a língua este cigarro.
As nossas coisas nos vêem, cheiram, sabem, gostam,
e sofrem-nos pacientemente como somos,
em nossas de carne e osso tristonhas intimidades.
Não são nós, mas, de nós tão saturadas,
são-nos indefinido lado, outras vozes, outros olhos, nossos,
que com a nossa presença crua se comovem,
contemplam e compreendem, e de só se calam.
POEMA DA AMANTE
Adalgisa Nery
Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que está presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda está ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
Desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
(Mundos oscilantes. José Olympio, 1962, RJ )
Soneto Simples
(Ao amigo e poeta R.S., com apreço)
AFLopes
Meus versos
não sabem
a tâmara
perdida
meus versos
não sentem
os beijos
da rosa
os lábios:
flor dos
desejos
secando
no adeus
de mármore
Manaus, 28 de março de 1961
Travessa Comendador Clementino, 75
Antonio Ferreira Lopes
[Nota do Site: Manuscrito com assinatura do autor] .
AS CARPAS
Apollinaire
Carpas, viveis tão longa vida
nesses viveiros de água fria!
Será que a morte vos olvida,
ó peixes da melancolia?
AR
Música de árvores.
Não a das folhas e ramos.
Mas a outra, para percussão solo.
Madeira, raízes, cascas, nós, galhos.
Tudo que pede machado, corte, pancada.
O que é duro - áspero - bate, e estaca.
O que estala e cresce da terra contra as estrelas.
Armando Freitas Filho, do livro Cabeça de homem, Editora Nova Fronteira, 1991
Para Ana Cristina,
em memória
Armando Freitas Filho
Ainda faltam muitos passos
para atravessar o saguão do mal-entendido.
Como não escorregar na cera
se os sentidos
já não me apóiam
e deslizam para longe
para todas as direções
como as contas de um colar
num chão de gelo
e nem o olhar consegue mais
alcançar, conter e contar
suas pérolas-lágrimas?
Como agarrar ou ser agarrado
nesse deserto triunfante
por alguma coisa que me ame?
Do livro 3X4 Editora Nova Fronteira, 1985
POESIA ARGENTINA
ANTOLOGIA ORGANIZADA
POR
Betty López
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Pedro Benjamín Palacios
(conocido como "Almafuerte")
Piú Avanti!
No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.
Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.
Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...
¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!
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Los poemas que siguen son de Borges:
Jorge Luis BORGES
EL INSTANTE
¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
de espadas que los tártaros soñaron,
dónde los fuertes muros que allanaron,
dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memoria
erige el tiempo. Sucesión y engaño
es la rutina del reloj. El año
no es menos vano que la vana historia.
Entre el alba y la noche hay un abismo
de agonías, de luces, de cuidados;
el rostro que se mira en los gastados
espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.
1964
El remordimiento
He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados.
Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida
no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfías
del arte, que entreteje naderías.
Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.
Augusto Frederico Schmidt
SONETO XLIX
Morrer, Senhor, de súbito, não quero!
Morrer como quem parte lentamente
Vendo o mundo perder-se pouco a pouco
E com o mundo as imagens da memória.
Morrer sabendo próxima e implacável
A hora de deixar o doce efêmero.
Morrer o olhar voltado para a altura
Para a Face de Deus, ardente e pura.
Morrer como quem vai se despedindo
A fixar as paisagens mais antigas
E os seres mais longínquos, já partidos.
Morrer levando a vida já vivida!
Morrer maduro, e não qual fruto verde
Por violência dos galhos arrancados.
Auta de Souza
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Na Primeira Página
da
“Imitação de Cristo”
Vinde a mim todos os que estais fatigados
e oprimidos, e eu vos consolarei.
IMIT. DE CRISTO L. IV. cap. I
(Macaíba - Março de 1899)
Quando meu pobre coração doente,
Cheio de mágoas, desolado e aflito,
Sinto bater descompassadamente,
Abro este livro então: leio e medito.
Leio e medito nesta voz celeste
Quem vem do Além, qual mensageiro santo,
Trazer um ramo de oliveira agreste
Aos que navegam sobre o mar do pranto.
Meus pobres olhos sempre rasos d’água,
Por um instante deixam de chorar;
E nas asas da Prece a minha mágoa
Vai-se um momento para além do Mar.
E d’entro d’alma, nua de esperança,
Eu penso ouvir como n’um sonho doce
Alguém que fala numa voz tão mansa
Como se o eco de um suspiro fosse:
“Vem a mim se padeces: no meu seio
Corre a fonte serena da Alegria...
Eu sou Aquele que sorrindo veio
Dourar as trevas da Melancolia.
Eu sou um branco e pálido sorriso
Iluminando a tua solidão:
Faze de minha Cruz um Paraíso
E do meu Coração teu coração.
Faze-te humilde, humilde e pequenina,
Como as crianças, como os passarinhos...
Escuta e guarda a minha lei divina,
No sacrário ideal dos meus carinhos.
Não sabes quanto padeci no Horto,
Por ti, por teu amor, filha querida?
Eu sou o Anjo formoso do conforto,
Venho trazer o bálsamo à ferida.
Carrega a tua Cruz e vem comigo
Pela estrada da Dor e do Tormento.
Eu serei teu irmão, teu sol, o amigo
Que em lírios mudará o sofrimento.
Venho trazer a Paz... Longe da terra
A Paz habita... Ao pé do Santuário,
Ó minha filha, a doce paz se encerra
Dentro da Hóstia, dentro do Sacrário.
Felizes os que sofrem e no meu seio
Recolhem suas queixas como preces;
Volta o pesar ao Céu de onde ele veio...
Feliz, ó sim! feliz tu que padeces!”
E a mesma voz escuto, o mesmo canto,
De cada vez que o meu olhar ungido
Cai docemente n’este livro santo,
Lembrança amiga de um irmão querido.
Amo tanto o meu livro, ele é tão puro,
Consola tanto o coração aflito!
Ah! desta vida no caminho escuro
Ele será meu talismã bendito!
E se ele entreabre, a rir, a boca ingênua e pura,
Casta como da rosa o seio imaculado:
“Abrem-se, par em par, - meu coração murmura -
As portas de coral de um palácio encantado!”
Ah! como fico alegre e como canto ao vê-lo!
Foge-me até do seio a sombra do Desgosto.
Inclino-me de leve e beijo-lhe o cabelo
Enquanto o Sol se ajoelha e vem beijar-lhe o rosto...
Ó lírio perfumado! Ó manso cordeirinho
Que guardas a Quimera em teu sorriso em flor...
Vive feliz, ó santo, e que jamais o espinho
Da mágoa te atormente, ó pequenino amor!
Que o meu Verso te leve, açucena bendita,
Nas asas de cristal, as brancas esperanças...
E o afeto sagrado e a ternura infinita
Que minh’alma consagra a todas as crianças!
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BENDITA
Bendita sejas, minha mãe, bendito
Seja o teu seio, imaculado e santo,
Onde derrama as gotas de seu pranto
Meu dolorido coração aflito.
Ó minha mãe, ó anjo sacrossanto,
Bendito seja o teu amor, bendito!
Ouve do Céu o amargurado grito
Cheio da dor de quem soluça tanto.
E deixa que repouse em teus joelhos
A minha fronte, ouvindo os teus conselhos
Longe do mundo, ó sempiterna dita!
Envia lá do céu no teu sorriso
A morte que levou-te ao Paraíso...
Bendita sejas, minha mãe, bendita!
À ALMA DE MINHA MÃE
Partiu-se o fio branco e delicado
Dos sonhos de minh'alma desditosa...
E as contas do rosário assim quebrado
Caíram como folhas de uma rosa.
Debalde eu as procuro lacrimosa,
Estas doces relíquias do Passado,
Para guardá-las na urna perfumosa,
Do meu seio no cofre imaculado.
Aí! se eu ao menos uma só pudesse
D'estas contas achar que me fizesse
Lembrar um mundo de alegrias doidas...
Feliz seria... Mas minh'alma atenta
Em vão procura uma continha benta:
Quando partiste m'as levaste todas!
A MINHA AVÓ
Minh'alma vai cantar, alma sagrada!
Raio de sol dos meus primeiros dias...
Gota de luz nas regiões sombrias
De minha vida triste e amargurada.
Minh'alma vai cantar, velhinha amada!
Rio onde correm minhas alegrias...
Anjo bendito que me refugias
Nas tuas asas contra a sina irada!
Minh'alma vai cantar... Transforma o seio
N'um cofre santo de carícias cheio,
Para este livro todo o meu tesouro...
Eu quero vê-lo, em desejada calma,
No rico santuário de tu'alma...
— Hóstia guardada n'um cibório de ouro! —
.
REGINA MARTYRUM
Lírio do Céu, sagrada criatura,
Mãe das crianças e dos pecadores,
Alma divina como a luz e as flores
Das virgens castas a mais casta e pura;
Do Azul imenso, d'essa imensa altura
Para onde voam nossas grandes dores,
Desce os teus olhos cheios de fulgores
Sobre os meus olhos cheios de amargura!
Na dor sem termo pela negra estrada
Vou caminhando a sós, desatinada,
— Ai! pobre cega sem amparo ou guia! —
Sê tu a mão que me conduza ao porto...
Ó doce mãe da luz e do conforto,
Ilumina o terror d'esta agonia!
A praia de Dover
Matthew Arnold
O Mar da Fé
Também existiu, no passado, cheio, e em volta da praia do mundo
Estendia-se como as dobras de uma faixa desdobrada.
Agora, porém, somente lhe escuto
O bramido melancólico, longo, fugidio,
Que se aparta para as lufadas
Do vento noturno, escorrendo por vastas e horrendas costas
E pelos areais desnudos do mundo.”
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Ah!, amor, sejamos fiéis
Um ao outro.
Pois o mundo, que parece
Estender-se à nossa frente como uma terra de sonhos,
Tão diversas, tão formosas, tão novas,
Na verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certeza, nem paz, nem lenitivo para a dor;
E estamos aqui como numa planície penumbrosa,
Varrida de confusos alarmas de combate e de fuga,
Na qual exércitos ignorantes à noite travam batalha.”
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Dover Beach
by Matthew Arnold
The sea is calm to-night.
The tide is full, the moon lies fair
Upon the straits; -on the French coast the light
Gleams and is gone; the cliffs of England stand,
Glimmering and vast, out in the tranquil bay.
Come to the window, sweet is the night air!
Only, from the long line of spray
Where the sea meets the moon-blanch'd land,
Listen! you hear the grating roar
Of pebbles which the waves draw back, and fling,
At their return, up the high strand,
Begin, and cease, and then again begin,
With tremulous cadence slow, and bring
The eternal note of sadness in.
Sophocles long ago
Heard it on the Aegean, and it brought
Into his mind the turbid ebb and flow
Of human misery; we
Find also in the sound a thought,
Hearing it by this distant northern sea.
The Sea of Faith
Was once, too, at the full, and round earth's shore
Lay like the folds of a bright girdle furl'd.
But now I only hear
Its melancholy, long, withdrawing roar,
Retreating, to the breath
Of the night-wind, down the vast edges drear
And naked shingles of the world.
Ah, love, let us be true
To one another! for the world, which seems
To lie before us like a land of dreams,
So various, so beautiful, so new,
Hath really neither joy, nor love, nor light,
Nor certitude, nor peace, nor help for pain;
And we are here as on a darkling plain
Swept with confused alarms of struggle and flight,
Where ignorant armies clash by night.
[1867]
TENREIRO ARANHA
(1769-1811).
Soneto
À parda Maria Bárbara, mulher de um soldado,
cruelmente assassinada, porque preferiu a morte
à mancha de adúltera.
Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflito, errante ...
Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito,
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco feio ao corvo altivolante:
Que dum monstro inumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque a dor amara
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que, por honrada fé que lhe jurara,
À mancha conjugal prefere a morte.
Querido Rogel
Realmente, a maioria dos amigos de outrora, mudaram muito, e às vezer, radicalmente
Mas existem aquelas amizades que ainda resistem a todas as mudanças
A idade avançada, também traz sabedoria.
A sabedoria de compreender as pessoas e as coisas como elas são
Diferente dos jovens que estão querendo sempre mudar tudo. Sem nem ao menos perceber o que realmente está acontecendo à sua volta. Ou com eles
E com isso, eles perdem um tempo precioso
A mudança faz parte da vida. É ela que traz a renovação
Quando compreendemos isso com sabedoria, como dizem os mestres, podemos aproveitar a vida a cada momento, com o que ela nos dá
Gostei muito de ler o seu blog
Abraço
Goretti/Daien
Estimado amigo Rogel Samuel:Li, encantado, o seu comentário acerca da minha modesta tradução deum soneto em inglês de Fernando Pessoa.Como analista arguto que é da Literatura, V. tem o dom de sondar o quepaira acima da mera análise literária em si. Vai muito além e o fazpoeticamente, desentranhando da profundidade dos seres e das obras oque não suspeitávamos como simples mortais. À sua crítica chamariade crítica poética, pois ela se se realiza no domínio daliteriedade, sendo que esta última acoplada à criaçãocrítico-poética.Suas crônicas, seus textos, estão atravessados por essa finasensibilidade, melhor dizendo, suavidade, do domínio do poético, dacrítica como criação, que faz de um texto um texto outro com umsopro do lirismo brotado na naturalidade , na espontaneidade de suaescrita.Portanto, lisonjeia-me saber que o trabalhoque faço no domínioliterario tem ressonância positiva de um especialista..Estou dando continidade às traduções de poemas pessoanos, dentro domeu tempo possível.Aproveito para informá-lo de que eu tomei a liberdade de incluir oseu Novo manual de teoria literária como indicação biblliográfica nomeu pequeno volume a ser lançadobrevemente pela editora Quártica,Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação.Cumpprimentando efusivamente, queira dispor do amigo e admirador, Cunha e Silva Filho.